domingo, 17 de janeiro de 2010

Venialidade


Maldita alma prenhe de paixão,
Que na antesala do coração se omite
E deixa ansiosa escapar-lhe a razão.
Em que dor se enrodilhou sozinha?
Maldita seja a ilusão que assim permite!


Não é o corpo que a alma cinge,
Seria como se a morte antecedesse a vida.
Cunha na carne o fogo da agonia,
Para que sobre o altar adormeça
Aquela que abraçou a vestal.


Dispa-se do furor da língua
Sem segredos , sem melancolia.
Segrega do corpo toda a cobiça;
Pois à mesa o vinho banha o pão que míngua,
Antes da comunhão de cada dia.


Maldita insurreição anunciada,
Vigorosa prova de fraqueza,
Que serve em cultos a carne vil;
Enquanto adoenta a sobriedade do espírito.


Rasga a pele com palavras amargas,
Mata a sede com penitências duras.
No mais profundo escuro da alma
A vida pulsa límpida e pura,
Servil e solitária como deve ser.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

O sal das doces águas


Águas dançam sob meus pés,
Rolam pela minha face.
Águas deságuam ansiosas
Sobre uma estação febril;
Que aflita se enfia sem ecos
Em intermináveis gozos.
Bailo na volúpia das cores
Entre anjos destronados,
Livre dos beijos marcados;
Presa unicamente à sentença
Da rebeldia dos seres e o vadiar
Da pompa em rituais ritmados.

O gosto de sal na língua,
No visgo do corpo suado.
Arrepio de paixão, luxúria e tesão.
Folia sem trava, fúria de liberdade;
Preparada e curtida em trezentos e sessenta dias
De sobriedade e anonimato.
Descansa no véu da tolerância
A explosão de ousadia encoberta,
A negociação com a angústia;
Que no final das contas
Mistura-se à multidão dos ébrios.

Águas que banham os desejos,
Lavam a alma sem pejo,
Ganham o mundo deslizando;
Aquietem meu coração encharcado
De dores e temores cercado.
Águas salgadas insanas
Permitam que doces águas
Cubram e batizem com a paz
As minhas mazelas humanas.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

provocação

num sussurro malicioso
me prende entre suas coxas,
revira meus cabelos,
despe minha nuca
quando acende arrepios na minha pele...

sabe que pelos flancos me domina,
se me apanha pela cintura
e rodopia pelo meu quadril
num manso beijo lambido...

me olha como quem fareja
morde os lábios,enfia os dedos
pelos meus cabelos,
quase posso lhe ouvir os pensamentos...

na espiral da fumaça silenciosa
seus desejos ociosos espreguiçam
...aceito seu recado...

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

indulto


a hora nona que tece o negro manto,
cobre a carne vestida de espanto;
é um quarto de tempo onde habita a razão,
o sentido desligado da emoção
nessa cela que até as paredes oram
e pouco se vê os olhos que choram.
nem a chave mestra incontrolável
alcança os ponteiros ou cabe no ferrolho,
há um vagido reprimido, indelével
que escorre em poesia e prece; um em cada olho.


não se fecha em desuso como rara,
mas dorme no silêncio que em si apara;
sei que arde como brasa encoberta
revirada nas luas por ela desperta.
não importa se o manto é fiado de segredos,
a cada um cabe os seus próprios medos,
mas se a hora nona se evidencia
há de ser pela procela que principia,
não se pode esconder vendavais cortantes
desarmonia febril de delirantes;
quando tudo é erigido em culto
para merecer unicamente um indulto.

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

a dor que me rói


a dor que ora me rói
não tem feridas aparentes
é uma dor doida de tão doída
que a alma dilacera e mói
até eu trincar os dentes

a dor dói e não sangra vermelho
não tem cortes mas escorre
e eu defronte a esse espelho
molho de lágrimas e porre
a dor que me machuca

sem parar, dói a dor e cutuca
o desejo de não mais desejar
a ânsia louca de amar
o amor que muito maltrata
a alma presa no bico da sinuca

como rasgar a dor ao meio
se nem o punhal de prata
faz doer mais que esse veio
aberto no vão dos seios
a me definhar como vira-lata

dói como enfarte agudo
essa dor sem coração
não mitiga um segundo
porque tem a fome do mundo
de amor, jamais de razão

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Doce saudade

dos seus beijos vou sentir
uma bruta saudade
dos seus braços vou ficar orfã
e do seu corpo tão ousado
vou ter delírios quando desejar

iguaria como seus beijos
não há em confeitarias
nem similar para meu paladar
a prisão dos seus abraços
tem requintes de tortura e prazer
e não há outra que eu queira provar

quanto a procela do seu cavalgar
não vou apagar as marcas
que cicatrizam no meu corpo
para sempre me lembrar com apetite
da fome que elas saciaram

as lembranças contarão os segredos
que um dia eu tive medo
elas encherão de alegrias
os dias e noites em que a solidão
vier morar no meu peito

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Existencial

Em que fórum foi assentado o contrato dessa minha existência?
Quando e como foi celebrado se já não me lembro de fato de ter lido a minuta...ou ter assinado nada...
Carrego quase meio século de estações desorientadas, não aprendi recolher as folhas dos outonos e vi poucas primaveras floridas, tenho as pernas doloridas pelo percurso inclemente, por dias inteiros de penitências.
Por descaso ou esquecimento nasci com neura de poeta e rondei metade dessa existência pelas letras, furtando ora aqui ora ali a emoção que campeia solta pelo meu coração adoentado de amor...
Não sei se brindo ou se abomino a experiência de tantos orgasmos; se esqueço os desejos que adormecem meus sentidos ou me orgulho do aprendizado do meu corpo ou ainda da minha cabeça que o consegue dominar.
Ando tonta de ter a visão cravada no amanhã imediato, enquanto me equilibro no estribo deste percurso que vai chegando ao fim...olho-me sem acreditar, que cheguei até aqui, e a que custo!
Com efeito, sei que somei conhecimentos, estudei o que mais me interessou. Não freqüentei os bancos da faculdade, mas de tudo já fiz um pouco; e as minhas mãos pequenas sempre me foram eficientes. Espalhei beleza pelas fachadas da cidade, rabisquei meus sonhos em preto e branco... furei os olhos da realidade pra poder sonhar sem intromissões...
O corpo que veste a minh´alma inquieta é o resumo da vida mal dormida, e se passeio nua nessa passarela...não há como não exibir os arranhões...e os hematomas, recomendo então, um tapa olho para os censores curiosos e cegueira providencial aos déspotas.
Socorrem ao meu grito um batalhão de elementais...fadas...duedes e gnomos...
Porém mais lúcida que ontem, menos senil do que amanhã, que pode não chegar; esmurro hoje as farpas dos olhos que chispam na minha direção, quebro as juras dos dardos inflamados que cospem fogo na minha lira.
Não tenho asas, não exalo perfume de hipocrisia, não assino com pedigree; definho à sombra da minha vigorosa solidão.
Sei que salto aos olhos dos escribas, não pela proficiência da fala,e sim pela ousadia em desfilar minha gramática quase rudimentar, meu vocabulário roto e exibir sorrisos fartos, distribuídos sem censura.
Queimam meus dedos na rotina das letras que despejo nas imagens, não menos ruidosas que minhas palavras,nessa tela de angústias.
Me pergunto se tanto empenho terá valido a pena. Rasgar a alma, romper com o silêncio frio do papel e cantar aos quadrantes os mistérios das minhas emoções...
Me dei conta que estacionei minha tola vida entre quatro paredes pardas, presa ao fio da minha própria ignorância; me deixei amordaçar. E finalmente começo a compreender que botar a cara na janela para respirar é tudo que careço nesse momento, quando as amarras dos meus pulsos comprimem
as palavras e dispersam nos ventos a inspiração...companheira necessária
das horas abertas e das noites fechadas...malvada que botou o pé na estrada
e sem marcar a data do regresso...levou um pedaço de mim...
Onde andará a chave da cela em que aprisionei a minha juventude, os meus ideais? Deixei meus projetos adormecerem e meus sonhos mofarem num baú...hoje são perversos quaisquer desejos; porque o tempo é cruel em mostrar que a vida já tem seus planos traçados, se não coloquei nos trilhos os meus sonhos, melhor deixá-los morrer de vez...
Adeus às belas fachadas que morreram antes de nascer quando desisti da arquitetura...adeus aos dias de luta pela política que não enfrentei...adeus
paixão da minha vida...a escola de artes...ao meu sonho de pintar como Renoir...Michelângelo...El Greco...Da Vinci...o que sobrou de mim...essa poeta sonhadora...de parca cultura...vocabulário roto... a alma livre...
que se atira inconseqüente na lira...com sede de viver...respirar a vida
pela veia que transborda incessante...
Que não me digam que é falta de esperança ou coragem,olhar o escorrer das horas e não tentar detê-las, isso não se pode mesmo,porém fazer o tempo e se fazer acontecer dentro do tempo é tarefa que exige determinação, a coragem e a esperança brilham quando o esmorecimento não nos toma a alma.
Quando já percorremos um longo caminho e olhamos o horizonte já tão próximo,a ansiedade de viver cada minuto como se fosse o último; e pode ser,
nos toma de assalto, principalmente quando olhamos pra traz e percebemos que a corrida tá chegando ao fim...a pergunta que ronda nossa cabeça é: será que ainda há tempo para ser feliz?
É enfadonho ouvir se falar dos temores que vão na alma...logo chegarão palavras de consolo...alguém me puxando as orelhas e tentando me segurar nas minhas próprias palavras de otimismo cantadas em dias de extremas alegria...entretanto não há como medir o tamanho do vazio que me separa dos meus sorrisos no espaço de um dia e uma noite...os olhos da realidade sempre se reconstroem...


18-07-04