Meu diário de bordo

sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

Êxodo



A  terra sangra de agonia
Ao ver arrancados os filhos amados
Que expulsos partem em fila fria
Cabisbaixos se vão os deserdados

O negro terror da partida
Aos que sucumbem em tortura
Nem enterro ou vela sentida
A vida aí respira secura

Que portas se abrirão?
A quem nada possui
Onde estará o novo chão?

Fusão de medo e ansiedade
Do tempo bom que não flui
E devora as entranhas com saudade

Nem vermelho nem azul




Nas minhas veias corre um sangue estabanado
Que se impacienta com a rotina
Nem vermelho nem azul; tem gosto salgado
Amortece e acalenta  qual morfina

Circula sem freios e sem direção
Esse sangue adoentado
Acelera e mata sem concessão
É quente esse sangue desordenado

Dá vida e agonia sem perdão
Essa vida entubada nas veias
Letal infortúnio da criação

O aluvião que em mim passeia
Exuma o corpo, mata a razão

sábado, 5 de dezembro de 2015

Teu olhar



Depositaste teus olhos tristes
no meu colo atrevido,
e bem antes do fim do dia
antes de provar minha libido;
tranquei meus limites.
Não deixaste fogo da paixão,
nem promessa de fantasia;
não me viste...

Longe do contorno das luzes
no abraço ligeiro da canção,
só me sabias um poço de sonhos,
desejos loucamente risonhos.
Com olhares na via cruces
apalpei tua imaginação
e não me viste...

Dentro do teu olhar
o meu se espelhou triste
balançou, marejou
oceano de mágoas represado,
meu olhar sem diques
explodiu...
e nem me viste...

quinta-feira, 19 de novembro de 2015

Não mesmo!



A necessidade me trouxe a superfície
O desgaste me leva ao fundo
As palavras me mordem ao acaso
Beliscam a língua que desgoverna
E antes prefiro criar caso
A pertencer a servidão moderna

A ser um cordeiro enfileirado
Prefiro uma forca no pescoço
A ter o grito amordaçado
Pago para ser o caso
Tenho opinião e me permito
Emití-la sem reservas
Não sigo gabarito

Nunca me inclua em badernas
O respeito é meu mito
E sei do alcance das minhas pernas.

Já era



Um dia te amei sem freios
Mais do que podia a razão
Teu nome tatuei nos seios
Acho que perdi a noção

Não foi amor, foi carência
Que encheu meu peito de ousadia
De me meter nessa experiência
De amor banhado de euforia

Mas eu amei com muito gosto
Sem travo e  sem pudor
E nenhuma ruga no rosto

Hoje que tudo é saudade
Nem paixão, nem mais amor
Respiro ares de oportunidade

Frágil

 

Era um sonho de anseios encharcado
Acordou um dia seco como a prece
Destas que se faz em pecado
E a conexão não se estabelece

Era um sonho patético
Desses que carece alforria
Que se debate como epilético
Privação de sentido e agonia

Afogou-se na secura racional
Das pseudos paixões dominantes
Que sem cura margeia o emocional

Nasceu de uma aventura delirante
Sem solo fértil perdeu a raiz principal
Morre como brotou, num instante

Eu sou, eu fui, eu serei




Trago por dentro tempestades severas
Ventos uivantes de muitas eras
Tenho a necessidade urgente das chuvas
O sabor refrescante das uvas

Gosto muito dos dias amenos
Dores e desafetos de menos
Atalhos no meio do caminho
Pensar e divagar sozinho

Não me lanhe o bom senso
Ele reflete o que eu penso
Embora eu brique de filosofar
Leve a sério  o meu pensar

Sou um amontoado de belezas
Confusas estações ilesas
Caprichos comuns da natureza

quinta-feira, 20 de agosto de 2015

intimidade


No vão dos seios uma nota nua.
A lira refeita e aceita.
O júbilo do encontro, 
Que mora dentro do desencontro.

O tatear macio da lua,
Que passeia  na cama desfeita;
Sorriem dispostas as alianças,
Os laços refazendo os pedaços.

Agora sim, os astros se enchem
 de esperança,
E a música passeia em arrepios
Na alva tez;
Procura a brandura dos cios

Refletida na timidez
Dos olhos semi cerrados.
Silêncio pelo medo que nasceu,
No jardim dos poucos pecados.

Os lábios entreabertos cheirando 
a erva doce,
De pronúncia carregada, a fala
 descompassada.
Conta do zelos, e provoca a ansiedade.

O corpo febril resvala nos segredos, 
Sequioso se contorce em súplicas.
E vão-se as horas por entre os dedos;
Confusas na intimidade,
Por lembranças únicas.

O sorriso esboça a alegria artificial,
Que se encolhe calada,
Banhada de suor e lágrimas.
A fonte de energia vital,
Tomba cansada,
Abraçada as lástimas.

domingo, 9 de agosto de 2015

Vigília


Teus olhos estatelados nos meus;
Anoiteceram, quando amanhecia.
Muitas vezes a mesma pronúncia;
Engoliu minha boca molhada de sede,
Sem interrogações...

Ouvi o silêncio da mente em repouso,
Seguido de frases confessas.
Eram as horas de Deus,
Ou refúgio da sabedoria?
Comprimida no pensamento, a renúncia,
Intrincada como uma rede,
Sem explicações...

Na minha alma quieta...um pouso,
Muitas lembranças pregressas,
O sorriso calmo dos camafeus,
O instante exato ...e a magia.
Tateei com a planta dos pés, a terra molhada,
Ave-semente que em ti se eterniza,
E brota de mim na relva suada,
Sem humilhações...

Na taça sem limite, o nardo escorre;
Doce pranto, no brinde da sacerdotisa
Mansamente coberta de aurora,
A noite enfim...morre...
Nas constelações...

sexta-feira, 17 de julho de 2015

Outro tempo



Olhando pelo espelho vejo o passado bem nos meus olhos; brilhando, pulsando quase querendo sair. Talvez eu não deva mesmo esquecer por isso ele insiste em me  mostrar  que é pra eu nunca esquecer que fui verdadeiramente feliz.
Sim eu fui criança um dia , eu não nasci desse tamanho, nem velha! Lá vem uma dose nada econômica de nostalgia. Nessa época não havia computador, nem celular, nem tablet e eu sequer tinha televisão em casa, mas como era divertido o meu dia, lembro-me de passagens pitorescas brincando de rodar pneu na rua com meus irmãos, andando de carrinho de rolemãs, de patinete, brincando de queimada, pic esconde, mocinho e bandido etc.
Vale lembrar que nesse tempo a gente podia ter revólver de brinquedo e por mais que parecesse com o do Roy Rogers não dava pra confundir com um de verdade.
Gente quando me lembro que até de rezar missa a gente brincava, penso que se fosse hoje com o policiamento do politicamente correto não nos faltaria uma enxurrada de críticas e castigo.
Quando não estava na rua, estava brincando de boneca que podia até ser de papel! Era divertido a beça; pegava fotos de revista e montava uma casa e ali passava horas entretida.
Desenhava também minhas próprias bonecas e muitas roupinhas para ela trocar, sapatinhos, botas como aquelas que eram vendidas e eu não tinha, mas eu sempre  queria uma variedade de roupas, gorros, bolsas e coisas diferentes por isso criava.
Aprendi a ler e escrever muito cedo porque sempre fui muito curiosa, tinha 4 anos quando ganhei meu primeiro caderno de caligrafia e lembro-me que ficava na beiradinha da máquina de costura da minha mãe, enquanto ela costurava, fazendo exercícios que ela me passava. Nessa mesma época também ganhei meu primeiro caderno de desenho; outra paixão da minha vida; era daqueles cadernos grandes, grossos e com folhas de papel de seda entre as folha, um luxo! Foi Seu João, ele que era pintor e amigo da família quem me deu, não sei se pintava em paredes, mas eu me lembro do caderno, dos desenhos e dele com muito carinho, ele tinha muita paciência ao me ensinar o que certamente me estimulou muito.
Posso citar mil brincadeiras e diversões, e de que adianta se as crianças de hoje nem ligam 
pra isso?
Acho que fui meio moleca porque aprendi a empinar pipa, jogar bolinha de gude, bater bafinho, rodar pião também pudera tenho 3 irmãos  e 2 com quase a mesma idade. Quando olho pra trás eu vejo quanto eu fui feliz, que variedade de coisas tinha pra fazer e o melhor; variedade para criar porque mesmo que não tivesse com que brincar a gente inventava.
             Lembrando Casimiro de Abreu:
             Oh! que saudades que tenho
             Da aurora da minha vida
             Da minha infância querida
             Que os anos não trazem mais.

Fim da linha


Quando digo que estou cansada, não quero dizer  físicamente; estou cansada de uma canseira sem cura; afinal já percorri a estrada toda e já estou fazendo o caminho de volta.
A estrada na ida nos distrai com tantos atrativos e nós ainda estamos vigorosos, cheios de sonhos e expectativas vamos céleres sem que os tropeços e dificuldades nos molestem.
Ah! A caminhada de ida é tão interessante, a gente não sabe exatamente onde vai dar , mesmo quando muitas pessoas tentam nos mostrar, não enxergamos porque o próprio caminho é o que mais importa.
Quando a gente é jovem vale trapacear mesmo que seja com a gente mesmo. Temos sede de novidades, de viver e aproveitar cada segundo, parece que a juventude nunca vai acabar ou no mínimo demorar para acontecer.
Mas cá estou eu fazendo o caminho de volta e com a cabeça meio perdida sem saber como será essa volta.
Um dia a gente se levanta da cama e percebe que vai fazer uma viagem e que não vai precisar de mala , que só levaremos o que está dentro da gente; que tudo que acumulou, comprou não pode levar. E é impressionante como juntamos coisas, livros e tralhas de todas as espécies físicas e emocionais. Mas na hora que você nota que está no caminho de volta nada disso tem mais importância. 
Todos tem que fazer o caminho de volta, uns mais cedo, outros mais tarde e há ainda os que voltam sem querer e aliás voltar é a única certeza que temos nessa vida. 
Portanto, já que estou com o pé na estrada vou voltar com classe, aproveitar a paisagem, tomar cuidado com as intempéries, tropeços e assim percorrer com mais tranquilidade a kilometragem que resta.

sem nexo


Carrego mais de meio século de angústias que nesse exato momento se chocam com a imperfeição da minha paciência. Aquela usina que recarrega as minhas energias, a mesma que me faz ser tão urgente, já não abastece com a mesma presteza a minha já tão escassa inspiração.
Sinto o engasgo das palavras que não escrevo, o sufoco abafado no peito que dói sem remédio e a mão abobada segue inerte diante do papel alvo.
Passo dias com a cabeça borbulhando pensamentos, alinhavando idéias que morrem sem alcançar a droga do teclado. Na rua rabisco flashs em retalhos rotos que acabam espalhados pelas bolsas sem qualquer significado.
Minha cabeça lateja, o peito vai somando dias e dias de tortura nesse casulo infame; represada e aprisionada em mim e por mim.
Sou nesse instante um amontoado sem graça de vocábulos adormecidos, uma porção de verbos mudos.
Quanto mais me procuro mais me exilo de mim. Quanto mais eu me embrenho nessa escuridão mais eu me afasto dos meus passos.
Não existe praticidade na vida de um poeta, não existe caminho curto.
Quando as angústias não explodem das veias pra nascerem poemas ou prosas... Morre um poeta e agoniza um ser humano...

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

Silêncios ( Duetando com TT)

Silêncio
Angélica T. Almstadter

Um silêncio invadiu o ar
Silêncio total...não de sons
Não silêncio de ausência
Silêncio vazio de palavras
Silêncio gelado a respingar
Desmaiado de cores de tons
Silêncio de convivência
Um silêncio gritante
Uivando em meus corredores
Silvo insinuante
Rasgando minhas dores
Outra vez...silêncio...
Não era o silêncio da solidão
Era um silêncio novo
Que apertava o coração
Gemia e se contorcia
Estava instalado
O silêncio de afasia
Espalhado por todo lado
Calou a minha voz
Caminhou sereno
No meio de nós
Silêncio inteiro e pleno
Manso e até sensato
Silêncio anunciado
Previsto
Revisto
Silêncio sem aparato
Agonia
Embolia
Silêncio infernal
Silêncio letal...

*******

branco vazio silêncio 
Maria Thereza Neves

perdi o encanto 
em mil faces 
no branco  vazio silêncio 
perdi letras 
poemas 
e cores. 
  
perdi o encanto 
em mil ecos 
no branco vazio silêncio 
perdi músicas 
sons 
e sonhos. 
  
perdi o encanto 
em mil vidas 
no branco  vazio silêncio 
em chuvas que lavam ruas 
arrastam memórias nuas, 
cruas. 
  
perdi o encanto 
em mil lágrimas 
no branco  vazio silêncio 
em  gotas 
que rolam almas. 
  
perdi o encanto 
em mil desencantos 
no branco  vazio silêncio. 

_____________________
JF/MG-2003
(Direitos Reservados)

****

Sem encanto
Angélica T. Almstadter

Sem encanto segue a vida
A alma chora sem compostura
Chôro sem censura
A dor que entra remida

Quase solene me lanço
Tecendo e sangrando
A dor que alcanço
Desabando...

Sem encanto
Meu corpo branco, brando
Deságua alvo pranto
Desencanto...

Silêncio branco
Dores duras...escuras
Amor sacrossanto
Lágrimas puras...

Deita-me mortalhas
Muito à carpir
Silêncios e falhas
Sem sorriso pra sorrir...


*****

Silêncio ! 
Maria Thereza Neves
   
Silêncio !
Não creio mais na história 
 no tempo 
 na memória 

quieta 
parada dentro de mim 
 pensamentos errantes 
emoções confusas 
buscando sonhos 

 sonhos doloridos 
recordações 
apegos que agitam 

 inércia 
serena 
pacífica 

pureza em movimentos suaves 
 caminho do eterno  
que se arrasta numa corrente 

em ondas  
existência, vida, natureza 

consciente da consciência 
observando  instantes  

profundo eu 
 fecundando nova alma 

****

Silêncio...
Angélica T. Almstadter

Silêncio aflito
Refletido nas paredes
Escorrendo em desafio
Contrito...

Silêncio nos murais
Crepitando nos castiçais
Em febre adunca
Reclusa...confusa

Silêncio marginal
Real ...total
Doendo nas vértebras
Sem quebras...

Silêncio profundo
Navalha de corte
Margulho fundo
No vazio de morte

Silêncio encantado
Pontilhado
Bendito e abençoado
Humilhado

********

O Teu Silêncio !
Maria Thereza Neves


Tua voz some . 

Teu silêncio cresce . 

Restam murmúrios de ausências 

dos ventos 

das ondas do mar. 

Ironia do universo que flutua 

fala 

grita 

e não cala!

***

O meu silêncio
Angélica T. Almstadter

Meu silêncio cresce
Anoitece
Em prece
Esvanesce

Silêncio de sentir
Ferir
Florir
Explodir

Meu silêncio grita
Medita
Acredita
Explicíta

Meu silêncio sai de cena
Condena
Serena
Dá pena...

Não acorde meu silêncio
Ele quer dormir
Mitigar
Digerir
Sangrar

********

Que o silêncio não doa
Maria Thereza Neves
   
Que o silêncio não doa
magoe
finde  sonhos
Que  imagens
não se  percam
apaguem!
Que meus poemas guardem lembranças
saudades
esperanças
expressando puro sentimento
 energia vibrante
cheiros ,odores, flores
sabores
colhendo conchas
bebendo estrelas
nadando  luas
voando ventos
doçura celeste
dissolvendo sorrisos
existindo em si por si
 leveza suave nas asas ,
dos sonhos,
do adeus. 

*****

Silêncio bardos
Angélica T. Almstadter

Lava meus olhos baços
Enfeita-me a face triste
O que persiste
Em se fazer em pedaços

Não colhi as flores
Não abraçei as poesias
Que pendia dos amores
Em gotas frias

Lavei em perfumes
Os olhares perdidos
Nas noites dos ciúmes
Pra fazerem esquecidos

Os silêncios bardos
Que brilham nos versos
Tantos e tão pardos
Pobres...dispersos
Agonizam cansados
Estilhaçados...
*******
Ecos do  Silêncio ! 

Maria Thereza Neves


Muito além das nuvens
muito além do tempo
muito além do hoje!

Os ecos do passado, calaram
fu-ra-ram   montanhas,   rochas
ul  tra  pas  sa  ram       fronteiras
não deixaram, registraram palavras
marcas,sinais.

Sumiram.

Não ouço mais nada!

Neste silêncio cego, mudo
caminho por novos horizontes
ao som da música

Muito além das nuvens 


muito além do hoje

muito além  dos Ecos do  Silêncio ! 

Rasura

Não importa o meu existir
ainda assim cai a noite, chove
indiferente ao meu sentir;
nada que me confirme ou prove.

não cede o ventre que me gerou,
nego o ventre que também gerei;
muito pouco de mim sobrou
nada continuará do que plantei.

Palavras, medos e alguma emoção,
de herança, nada deixo de consistente;
a vida é feita de pele gravada na razão

Essa não juntei, faltou habilidade.
Amoldada à vivência retrátil
rasurei -me na sensibilidade.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

Sem sons


Acordei sem versos, sem sinfonia de sons
só alguns estilhaços do meu pós -mortem
bailando na lágrima dos meus olhos parados.
Me peguei dedilhando rígidas consoantes sonsas,
intercaladas de vogais átonas e sem certezas.
Tudo que eu queria era um grito interminável,
estridente carregado de cores e significados;
mas senti os punhos pesados, as pupilas cansadas.
Me deixei abater pelo cinza carregado
que esfumaçou  minha única vidraça.
Aqueci os dedos na chama oscilante que me alumia
para secar o frio das juntas enregeladas;
Tamborilei com esforço palavras amorfas
mas tudo que consegui foram sons abafados
falanges trincadas ecoando no silêncio de mim.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Ah, poesia!!

A poesia me ama incondicionalmente
Comigo se deita; me faz ninar
Mima meus sonhos tolos
Clareia o despertar do meu dia
Ela e só ela conhece meus anseios
Meu coração de atropelos
Apara cada uma das minhas lágrimas frias
Descortina sorrisos nunca antes despertados
Esse frisson inexplicável
Que tece dias de agonia
É o mesmo que cerze os retalhos da minha vida
A poesia é o ventre que acolhe meu corpo estilhaçado
Nos longos dias de algesia
Embala meus sonhos amordaçados
E é sim o mesmo anjo que move meus passos desajeitados

Solenidade

A taça de veneno a mim recomendada
Foi servida em doses inexatas
Coalhada de cacos coloridos
Em bandejas de sóbria euforia
Um fio de sarcasmo
E uma pitada de aflição
Completam a taça oferecida
Que aceitei no ato da concepção
Eu a sorvo como iguaria
Junto a tantos desgraçados
Que na mesma festa de humilhação
Ousaram comparecer ao ato da homilía

Por que eu canto?



A dor congela quando canto
A poesia é a cura da minha insanidade
Há loucos que pintam, que correm, que voam
A cada um o instrumento que lhe cabe na razão
Enquanto entôo cantos de aflição
Meu céu é azul e o cheiro de mar me inavade as narinas
É como um bálsamo mitigando as feridas
Como oração ofertada à alma
O freio da loucura instalada
Calça e veste meus dias de afobação

Antes a loucura bem acompanhada
Que a razão sufocando a alegria de ser livre
Como e bebo letras encharcadas de emoção
Para embriagar uma vida inteira
Danem-se os tolos que não experimentaram a aventura de viver
Não tropeçaram na euforia da insanidade
Pobres bastardos, deserdados da beleza
Não aprenderam ter o passe livre no sal dessa terra de provação

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Aventureiras



Passeia por cá sua alma arisca,
Tudo cheira, rodeia e cisca.
Por onde se arrisca essa alma aventureira?
Que me surpreende sem pistas,
Percorre-me em cada palmo,
Reconhece de pronto o alvo!

Entra por cá, sua alma fugidia,
Quando tudo em volta silencia,
Se abeira da minha, que espreita sorrateira;
Vem bailando sua alma trigueira,
Encontrar-se com a minha namoradeira.

Soltas nesse mundo sem fundo,
Nossas almas sem eira nem beira,
Se arriscam forasteiras, 
Num gozo profundo.
Até que se esgote a vontade que nos esgueira;
Seremos laços sem fronteiras 

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

Vício



Quando tu queimas
Seguro a respiração
Te trago pra dentro do peito...

Queimas tanto cá dentro
Que preciso te soltar
Minha boca insiste
Em novamente te buscar...

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

Gavetas entreabertas



Onde andará o silêncio que preciso  para organizar meus pensamentos; pobres pensamentos tão soltos e  embaralhados.
A cada minuto envelheço inexoravelmente antes de encontrar as soluções mágicas que persigo.
No meu entorno o mundo se agita e me agita, não sei o que encaixar em tanto espaço que vai se acumulando em mim pela perda dos sonhos e ilusões que vou deixando ao longo do caminho.
O que vou encontrar dentro das gavetas da minha alma? Tenho medo de abrí-las. Sei lá, talvez contenham emoções sufocadas, mofadas ou medos e temores estranhos que achei incontrolados e os trancafiei.
Tantas bugigangas guardadas em caixas que não mexo há anos; devem conter traças, cheiros nauseabundos que não sei se ainda suporto.
Não consigo definir se essa que vejo no espelho é a que sou ou a que me transformei, não me reconheço nas marcas fundas delineadas no rosto. Jovem não sou mais, porém a sede das buscas ainda pulsam fortes nas minhas entranhas.
Aliás, quem sou eu com tantas gavetas, caixas e espaços que simplesmente desconheço!

quarta-feira, 29 de maio de 2013

Uma rodada de fé




Seu crer me anuncia. Minha presença é bálsamo para a carência diária de cada alma desesperada que cruza o portal da esperança e da fé.
Nem sempre dou o buscado, nem sempre o buscado é o desejado.
O inferno diário e único de cada um tem nuances parecidas; diferenciadas pela circunstâncias que acode a realidade vivenciada em momentos diversos.
Seu olhar emite pedidos, seu coração saltita esperançoso como quem busca o último gole d'água para matar uma sede que atravessa vidas sucessivas sem que consiga ser saciada.
Ao adentrar no sagrado chão; seu corpo experimenta sensações tantas que vão do êxtase ao desespero. Ao sair leva consigo o fogo da alegria , o conforto da bênção que preenche o coração prenhe de esperanças e pesado de carências que a vida impõe.
Muitos séculos são despertados em poucos minutos, sem que se possa traduzir em palavras e até mesmo que se consiga perceber.
Muitos são os rostos, muitos são os desejos, contidos em cada coração, mas a massa humana nessa hora parece uniforme visto que fé é um traço comum e borbulha dentro de cada um e faz o todo iluminado, iluminando uma espera sem culpa , sem pressa e sem medo. 

domingo, 26 de maio de 2013

Gipsy on



Energia em off
luz salpicada em cores
e as saias rodando...

Um relâmpago pisca
na voz murmurada
sob a chama tremulante

Calor dissipando dores
porque hoje a alegria
ensaiada entra em cena

Há passos tristes lá fora
cá dentro a música
aquece os corações sôfregos

Tantos rostos interrogam
perguntas que não se sabe
de quantas vidas trazem

sexta-feira, 24 de maio de 2013

As vezes me odeio




Anoto teus recados
penduro bem próximo dos meus olhos,
em cada manhã que não te acho
fixo a visão nos teus arautos,
inúmeros avisos selados
Dispersão ou relaxo?

Seguem-se semanas, meses
entre ligações e aparições,
e eu nessa prisão por capricho,
fico. Penso, leio... as vezes
me odeio por frear o  bicho
que me morde uma centena de razões

quinta-feira, 23 de maio de 2013

Bicho




Tenho dentro de mim um bicho que me castiga,
Uma febre que arde e queima como urtiga.
Tenho um bicho que me rasga e sufoca,
Que me atormenta e provoca.
Por onde passeia esse bicho que me esgueira?
Na pele arranhada, na voz apertada ?
Onde me arranca gemidos esse maldito?
Que sabe o tamanho do meu grito.

Tenho cá dentro um bicho acuado,
Um bicho medonho e assustado;
Que cospe grunhidos, 
Mancha minha carne de pruridos.
Onde guardo essa fera bestificada?
Que não sabe por onde ataca.
Tenho nos pulsos esse bicho violento,
Esse cão tinhoso, medroso,
Sangrando qual hemorragia.
Essa fera acuada que me rege;
Remói palavras e pare poesias,
Porque essa doce fera atrevida,
Tem da vida, louca fobia;
Se comporta como um santo herege,
Pra continuar enrustida,
Na minha verve doída...

terça-feira, 14 de maio de 2013

retalhos




me desprendi dos laços 
e na frouxidão dos meus pedaços
comi minhas metades

para o que ficou exposto
à miséria das moscas
morreu o famigerado desgosto

nem no freezer me acho
um naco sem essência
pura diplicência
mas foi tudo no despacho

Rotina




não queria rimas
musicavam-lhe os verbetes
mas precisava lavar os tapetes
a poesia tinha mesmo que esperar

serena




teu espaço repousa
entre cantigas e afagos
no vão das coxas
no entremeio dos seios

há mais de ti nos minutos
da espera acomodada
no dedilhar de serenos

que na primavera de ilusões
dos jardins internos
nos desfiles de ocasião

exata e estimada lembrança
bole com meu juízo
e descansa na esperança

domingo, 12 de maio de 2013

Stand By




eu fazendo download
no meu coração
você em stand by
contempla
vê se acorda e zipa 
meus documentos

fiz up date de você
liberei o firewall
e você continua 
stand by
vê se acorda e executa
meus programas

Surtei!!




Socorro, surtei ! 
Entrei em greve por tempo indeterminado;
Não estou pra ninguém,
Fechei todas as portas e vou amarrar um bode.
Cansei de tanta falação
Tem recado pra mim?
Pendura por aí,
que eu leio se me der na telha;
Vou ler tarô e gibi
Comer pipoca, chocolate e ver TV
Preciso urgente emburrecer;
Surtei de vez!
Chega de badalação!
Tô com tesão em outra fantasia
Vou cair em outra folia,
Se der saudade eu volto,
Mas só de cara nova,
Reprovei nessa prova;
Tô vestibulando pra próxima!

sábado, 11 de maio de 2013




Eu só tenho sobrevivido
Sem palavrões 
Com gestos inibidos
Apertada pelas emoções
Sem graça
Sem segredo
Um pouco mofada
No meio da arruaça
Eu tenho medo
Da cilada
De ter sobrevivido
Até aqui.

timidez





seus olhos marotos
me olham sem disfarce
saltitam sobre meu corpo
deliciosamente garotos

seus olhos gulosos
me lambem a pele nua
disparam ansiosos
sem perder a pose

fecho os meus em close
guardando suspiros de lua
timidamente maliciosos
com seus beijos de rua

vadiagem




eu te amo, tu me amas
desde os olhos
por entre os lençóis
no rubro dos lábios
no afago das mãos

lágrimas? não!
alguns silêncios
brechas de tempo
beijos no vento
amor no firmamento

eu te amo, me amas
pouco, muito?
que importa?
amamos o suficiente
para varar noites
calar dias
nessa vadiagem explícita

virtude




me encara sem medo
minha porção santa dorme
quebra a tirania dessa escassez
que requebro pendores
onde jamais ousaria

a vida dança atônita
espalhando encantos nobres
e a mais pobre das mortais
digere sem agonia
o doce mel da euforia

sob o manto da virtude
mora o pecado
o desejo da inquietude
abaixo o espanto
a morte da concupiscência
viva a displicência
que pune por desuso
a indecência

quinta-feira, 25 de abril de 2013

Insatisfação


Insatisfação

quão insana é a sua mente?
quão pura é sua oração?
não há resposta decente
para tamanha petição.

coleciona rios de lágrimas,
vertentes de aflição,
afluentes de lástimas
e ainda morre de tesão.

mente que se cura
e promove insatisfação;
se move sem censura
e se acha dono da razão.

minha rima empobreceu
para falar de um canastrão
que um dia posou de Romeu
para se desmanchar no chão.

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Diário II


Diário II

Guarda minhas palavras, o meu diário...
como lembrança do meu sentir...do meu existir no teu meio...
Guarda cada uma das minhas emoções...cada uma das minhas lágrimas... emoldura cada um dos meus risos...seleciona cada momento que me dei em abraços...e conversas frouxas...
Lembra-te das minhas broncas...das minhas pequenas gentilezas...das minhas ausências...do meu jeito intempestivo de adentrar tuas falas...
Não te esqueças dos meus silêncios sofridos...das minhas reflexões murmurantes...
Pensa que várias vezes falei da minha crença...
da minha fé...tantas vezes me derramei em confissões...em juras...
Nunca te incomodes com o meu desconforto pelas
acusações...pelas insinuações..ou até pelos 
pensamentos mal compreendidos...acho que criei algumas resistências...
Não te esqueças da amizade que dediquei a cada
um dos meus amigos...do abraço apertado...do
beijo estalado que à cada um enviei com carinho...
Tenha a certeza das muitas conversas ao pé do ouvido...das muitas alegrias e das outras tantas tristezas que compartilhei com cada um com quem estive...
Saiba que comigo morrem os segredos a mim confiados...tenha certeza da minha lealdade...da minha fidelidade...da minha eterna cumplicidade...
Sei que sabes tanto de mim...que desse livro aberto que sou...pouco faltou para dizer...
dessas minhas conversas transparentes...dessa minha urgência de ser...fiquei como um marco...
feliz ou infelizmente deixei rastros...deixei pegadas
que vão levar tempo para serem apagadas...
Ainda assim te peço...guarda as minhas palavras...
as que dediquei só a ti...as que nunca dividi...
guarda as minhas lembranças...meus
soluços de criança...porque ninguém me verá
como me vistes...ninguém jamais terá
o que é só teu...
Não te peço que lembre da mulher...e sim da poeta de alma livre de preconceitos...cheia de defeitos...de erros e transgressões...
Lembra dessa poeta que não sabe falar de guerras...
de ódios...de bichos...de acasos...que só aprendeu
a falar do amor que lhe corre pelas veias...

sábado, 1 de dezembro de 2012

Valsa



Pés alados fora do compasso
Na dança das horas mortas
Se verga no atraso do meu passo
Passeia nas linhas tortas

Rodopio na valsa com graça
Tropeço, engasgo no seu abraço
Você ri, não importa o que eu faça
E eu valso pelo seu braço

Pés alados para o infinito
No aconchego dessa dança
Seu amor tão aflito
Me envolve e descansa

domingo, 25 de novembro de 2012

Alucinação




Respiro a solidão que escorre pelas paredes deste quarto 
Habita essa cama enorme e fria 
Em noites de pesado sereno 
Meus olhos baços se debruçam no candeeiro 
De chamas chorosas 
E pinga em gotas quentes a lágrima silenciosa 
Murmurada entre os inconfessos soluços 
Como pequenas labaredas 
Meu olhar desalinhado se perde 
Nas esquinas desta espera 
Meus lábios ressonam 
A poesia cultivada na alma 
Jorrando como rios que correm para o mar 
Bravios, caudalosos apressados... 
No balé do meu olhar sereno 
Mora teu rosto murmurante 
Infinitamente distante.... 
Não te encontro nas dobras dessas lembranças 
Nas encostas deste abismo em que me esgueiro 
Me recolho aos átrios internos 
Cerrado pela censura vital 
Que me espreita caprichosa 
E busca o meu abraço solitário...

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Aparas




Em que parte de mim me uso?
Onde acho as pontas do fio desse casulo?
Sei onde aparo minhas arestas,
Como sei onde encontras minhas frestas.
Escolhi as bordas do inferno
Para delas observar o infinito que me cobre;
Assim, nem toda escuridão é eterna.
Onde e quando me anulo
Nas tramas trocadas desse abuso?

Toma meus jardins, adentra meus átrios,
Que me permito, em soltos fragmentos;
Comer a poeira desse redemoinho
Para permitir a paz do polimento.
Habito as entranhas de um vulcão,
Tenho gumes afiados e olhos de águia,
Deixo a superfície para os enfeites,
Para os breves aceites,
E envolvo em cadeados as portas da baia.

É nas profundezas, onde os elos se fundem,
Que os rasgos são mais doloridos e se confundem,
Que se formam os maremotos;
Onde não alcançam os olhos da carne,
Onde se purificam as origens,
No abalo das estruturas,
Permitindo grandes rupturas
No vigor de se saber varrer a alma,
Aí é que se instalam as transformações.
Não pelo prazer único de ser o que se come,
O que se veste, o que se tem;
O ser pelo existir somente não preenche.
A pluralidade de se ser único;
Está na particularidade de saber ser
Inteiro, constante e livre;
Sabido e querido, sem porém.

segunda-feira, 30 de julho de 2012

aparências



dei-te asas e o infinito
mas te rastejas agarrado à miudezas.
da minha febre, inventei a vacina;
tu rapidamente, a chacina.
sobe pela minha face o rubor
injeta-me os olhos de melancolia.

coleciono pilhas de indiretas
chiadeiras em furor;
mas me guardo sem restrições
nesse jogo que assusta
entre portas e passagens secretas
de aparentes petições
de desejos sem pudor
nessa sede que frustra e susta
todas e quaisquer aferições.

sexta-feira, 20 de julho de 2012

Reciclando sempre


 Latinhas de Neston recicladas para outros usos

Transformei essa pet em suporte de papel higiênico para uso fora do toillete

segunda-feira, 16 de julho de 2012

O tempo em mim





Tenho olheiras das preocupações, das noites mal dormidas, rugas de tristezas, flacidez das ansiedades.
Coleciono fios embranquecidos que marcam  as lutas que venci e as que não consegui ainda.
Os passos cadenciaram não pelo cansaço; pela falta de pressa, pelo gosto de aproveitar cada minuto como se fosse o último.
Meu olhar perdeu o brilho da novidade e ganhou contornos de sobriedade, da sabedoria, da aceitação de ser.
A boca não grita com o entusiasmo de antes, mas sabe a hora certa de falar e calar; porque o coração  em equilíbrio não a exulta a descompassos exagerados, basta o murmurar com delicadeza para ser compreendida ou o silêncio revelador.
Tenho a idade exata de estar onde estou, de ser quem eu sou, de aprender de novo e sempre.
Tenho nas mãos o perfume de uma vida inteira para tocar nas palavras.
Posso gastar o tempo, que me resta, apreciando a vida pela janela, lambendo velhas feridas ou posso renascer a cada dia e reaprender a pessoa que quero ser.
Definitivo mesmo só a morte.

sexta-feira, 13 de julho de 2012

Dilema




Fora da corrente sou o elo 
A semente jogada ao vento 
Sou a curva do paralelo 
A imensidão em cada momento 
Sou o inexistente 
Sou o frio fio da navalha 
Sou eu simplesmente 
Minha própria mortalha 


Na receita do destino sou passageira 
Para a pitada na mistura 
Onde sou fiel mensageira 
Das doses de amor sem censura 
Disposta como ângulo na geometria 
Traço desenhos com meu corpo 
Na mais perfeita simetria 
Em pele nua sem adorno 


Programada para ser amorosa 
Desfilo minhas palavras 
Meu vazio cor-de-rosa 
Como enfeite das lavras 
Sou também tão desconcertante 
Tão rota para o escracho 
A zombaria da hora 
No sério papel de capacho 
Como gentil senhora 


Sou o muito do nada 
O abalo da construção 
Ilha do oceano separada 
Mão dupla na contramão 
Sou o olho do furacão a fumegar 
Sou a lua uivando para sol 
Uma amante a mendigar 
Por uma estrela do arrebol

terça-feira, 10 de julho de 2012

Amadurecer





Vou tecendo as horas sem pressa
Nesse espaço duro
que desbota inexoravelmente
Reconheço em vão alguma promessa
sem esperança de futuro
morta para sempre


Engulo sóis e luas distintas
nascendo e morrendo na minha cama
cobrindo de fino pó, dourados sonhos
que redesenham na pele
o desejo de amanhecer diariamente