Meu diário de bordo

quarta-feira, 21 de abril de 2010

NUNCA












Não há portas a nos separar, nunca houve
Só um tênue esperar sem cobranças
Um silêncio cúmplice para quem ouve
O ranger de pés retornando das andanças

Não há relógios marcando tempo de espera
Só o badalar descompassado de corações apressados
Que insistentes, nas horas soltas emperra
No estio de braços solitários estilhaçados

Atravessa a passagem do imune momento
O pulsar da razão desatando o coração
Quedando-se assim num átimo de pensamento

Minha vida que sem espreita longamente sorri
Defronte a porta imaginária a ti confessa
Sempre aqui estive, do teu lado eu nunca saí

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terça-feira, 16 de março de 2010

Pré - Conceito


Eu sei desse fogo que ateia louca,
Rouca, qual loba no seu apogeu.
Ateu é o louco que te acha pouca;
Douta da fúria que nunca perdeu.

Não te compreendem a utopia,
Covardia, marca a desaprovação.
Coração é para poucos um guia;
Magia que é, não tem liquidação.

Veste a pele que te faz frente,
Independente da pecha de peste;
Teste de quem te compra carente.

Enquanto desfila poesias pinceladas,
Cinzeladas com nostalgia, um canto
De encanto; se perde nas madrugadas.

domingo, 14 de março de 2010

Comunhão Infiel













Correm lentos seus dedos
Pelas matas dos meus cabelos,
Donde o perfume de capim cheiroso
Em arrepios sopram segredos.


Passeiam nus, seus olhos belos
Pelo meu ventre perigoso
Acordando meu sono manso.
Meu regato embriagado
Sustenta sonho e fantasias,
Na porção menina que não alcanço.


A tez inquieta desperta
Desejos na penugem serena
Em hora incerta;
Veneno na doçura da açucena.


O dorso descoberto anuncia o cio,
Que afogado se entrega
Aos sabores densos
Da bebida cruel;
Que na carne nunca é amena,
Na alma acalenta o frio,
Mata a sede dos sentidos.
Ah! Doce comunhão infiel.

sábado, 13 de março de 2010

Magia


Estreito o tempo em torno de mim e
observo que quanto mais eu corro mais
ele tenta de mim se afastar; entre um dia e uma noite sobram poucas horas tensas onde guardo meus delicados sonhos trançados sem pressa.
Sob a luz tênue e fina que passeia no meu leito deserto, confesso entre travesseiros e lençóis quietos meus receios, tão cândidamente...tão deliciosamente sinceros...
Entre as horas que murmuram e o silêncio que espreito atrás das portas, sobram muitas conversas, risos soltos,
contidos...e abafados gemidos inconfessos...
Nem uma noite é inteira para eu guardar tantas idas e vindas por esse
vão da janela, e nem divido esse assombro de desejos que de ti derramam em mim...
Tomara ninguém se dê conta desses hiatos abertos no tempo que nos cerca, assim continuamos sóbrios amantes
antes e durante...como quem fita na sala de espera plácidamente o tempo que escorre sem pressa...
A vida não marca compassos, não reduz os efeitos do tempo, não avalia
as nossas escolhas, mas sabe como ninguém manter a magia ao alcance das mãos qual fora um mimo que
que toca bela melodia quando desperto
pelas mãos hábeis dos donos desse
breve instante onde frágeis
bailarinos deslizam com graça,
antes do cerrar das cortinas...

sexta-feira, 5 de março de 2010

Viver para servir


A rudeza do meu ser tenta se amoldar às pessoas...
ao melhor ângulo do mundo para também aprender.
Não estou aqui para passar despretensiosamente, pela vida;
creio firmemente numa dimensão maior de cada gesto,
de cada aprendizado, como parte do meu crescimento
espiritual e como ser humano, da mesma forma que creio
que não devo me abster de contribuir com o meu quinhão.
Pensando dessa forma tenho observado o mundo
ao meu redor e tenho amado as pessoas como se fossemos
todos verdadeiramente irmãos, porque assim tenho aprendido
ao longo da minha vida, seja por exemplos
colocados à minha frente, seja mesmo
pela minha natureza amante, felizmente.
Embora tenha acuidade suficiente para sentir e entender
o sentimento das pessoas, e embora tenha uma vontade ferrenha
de aprender cada vez mais sobre como se processam
esses movimentos de ida e volta de emoções,
tenho uma enorme dificuldade em aceitar
o que se situa fora dos parâmetros amorosos.
Não tenho sabedoria para lidar com a rejeição,
com ódios e ressentimentos, visto que me sinto
sempre predisposta ao amor, a amizade
ao companheirismo e o bem comum,
por onde quer que eu caminhe.
Dada a imperfeição espiritual que sobejamente
grassa no mundo em que vivemos,
tornam-se incompreensíveis alguns gestos,
como o amor incondicional, puro e sem comprometimento,
a simples cortesia de prestar alguns favores ou delicadezas
no dia a dia, que não onera em nada o
nosso trabalho e a nossa vida.
A descrença total do ser humano em relação
ao outro chega a ser estúpida, não se coaduna
com o que nos é pregado no Evangelho,
e mesmo as pessoas que não têm o Evangelho
como estatuto de vida, têm noções básicas de como
deve ser a convivência no dia a dia, e a convivência
para ser dinâmica e qualitativa deve incluir a troca,
seja de carinho, afeto, amizade e conhecimentos.
Ninguém fica mais pobre se dividir o que lhe sobra
de conhecimento; ninguém fica mais vazio
se distribuir mais calor humano e carinho,
ao contrário, só melhora o mundo ao
seu redor e melhora-se a si mesmo.
Somos todos pedras a sermos lapidadas, e no escorrer
desse rio que é a vida, vamos aparando arestas,
para chegarmos ao nosso destino final.
Passar por essa vida sem sofrimentos é impossível,
entretanto a cada dificuldade vencida saímos melhores
e menos rudes, porque aprendemos um pouco mais.
Meu espírito agregador me impele a sempre me unir
às pessoas com quem me afinizo, entretanto, reconheço
o quanto ainda necessito de aprendizado
e o muito que ainda careço de polimento,
já que meu espírito se ressente e se magoa facilmente
com as coisas mundanas.
Não devemos desistir de buscar sempre um melhor
entendimento, a cada tropeço é preciso se levantar
e olhar adiante e não a pedra que nos atrapalhou
a caminhada, reza a cartilha da boa conduta
e da boa educação que não devemos chutar as regras
e sim entende-las, ainda que precisemos esmiuça-las.
Ninguém passa por esse mundo impunemente,
todos temos aqui muito a aprender, ninguém nasceu pronto.
O convívio com as pessoas, o dia a dia, nas relações
de família, trabalho e lazer nos colocam em situações
de maneira a nos lapidar o espírito.
O ser feliz inclui estar em paz com o mundo
em que nos relacionamos, e cada um de nós
é responsável por um mundo melhor já
que a paz começa dentro de nós mesmos.
O meu ser ainda muito rude me coloca em xeque
em muitas situações, me pede tomada de decisões apaixonadas
e sem reflexão, entretanto meu espírito cristão luta
contra a minha natureza humana, pedindo desesperadamente
que eu aja de acordo com as leis do meu Pai, para
que eu me deixe ser lapidada; afinal essa é a finalidade
para a qual eu vim a esse mundo.
Ainda que eu seja só uma pessoa comum,
cheia de erros, e com poucos acertos,
estou sempre disposta a aprender um pouco
mais, estou sempre me colocando a disposição
dos meus semelhantes para servir, porque
ainda tenho por norma de vida o
Evangelho, e se mais não sei...aprenderei.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Ilícito


Angélica T. Almstadter
20-05-05
Eu te desejo meu amor ilícito;
Como água para matar a sede.
Eu te desejo assim explícito;
Mentira rabiscada em parede,
Declaração grafitada no muro.
Mas antes de te tornares real,
Antes de te fartares do meu futuro,
Amor do meu encanto ideal,
Prova na minha boca;
O fel e o mel das palavras,
E mata a minha urgência louca
De endoidecer por essas escravas;
Assim quando forrar o meu chão,
Do gozo das noites sem violinos
Só servidas na esteira do coração;
Em júbilo, entoaremos hinos
Despretenciosamente desapegados,
Das dores que rondam os fúteis.
Em mansos serenos seremos imortalizados,
Puros, como não são os volúveis.

domingo, 17 de janeiro de 2010

Venialidade


Maldita alma prenhe de paixão,
Que na antesala do coração se omite
E deixa ansiosa escapar-lhe a razão.
Em que dor se enrodilhou sozinha?
Maldita seja a ilusão que assim permite!


Não é o corpo que a alma cinge,
Seria como se a morte antecedesse a vida.
Cunha na carne o fogo da agonia,
Para que sobre o altar adormeça
Aquela que abraçou a vestal.


Dispa-se do furor da língua
Sem segredos , sem melancolia.
Segrega do corpo toda a cobiça;
Pois à mesa o vinho banha o pão que míngua,
Antes da comunhão de cada dia.


Maldita insurreição anunciada,
Vigorosa prova de fraqueza,
Que serve em cultos a carne vil;
Enquanto adoenta a sobriedade do espírito.


Rasga a pele com palavras amargas,
Mata a sede com penitências duras.
No mais profundo escuro da alma
A vida pulsa límpida e pura,
Servil e solitária como deve ser.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

O sal das doces águas


Águas dançam sob meus pés,
Rolam pela minha face.
Águas deságuam ansiosas
Sobre uma estação febril;
Que aflita se enfia sem ecos
Em intermináveis gozos.
Bailo na volúpia das cores
Entre anjos destronados,
Livre dos beijos marcados;
Presa unicamente à sentença
Da rebeldia dos seres e o vadiar
Da pompa em rituais ritmados.

O gosto de sal na língua,
No visgo do corpo suado.
Arrepio de paixão, luxúria e tesão.
Folia sem trava, fúria de liberdade;
Preparada e curtida em trezentos e sessenta dias
De sobriedade e anonimato.
Descansa no véu da tolerância
A explosão de ousadia encoberta,
A negociação com a angústia;
Que no final das contas
Mistura-se à multidão dos ébrios.

Águas que banham os desejos,
Lavam a alma sem pejo,
Ganham o mundo deslizando;
Aquietem meu coração encharcado
De dores e temores cercado.
Águas salgadas insanas
Permitam que doces águas
Cubram e batizem com a paz
As minhas mazelas humanas.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

provocação

num sussurro malicioso
me prende entre suas coxas,
revira meus cabelos,
despe minha nuca
quando acende arrepios na minha pele...

sabe que pelos flancos me domina,
se me apanha pela cintura
e rodopia pelo meu quadril
num manso beijo lambido...

me olha como quem fareja
morde os lábios,enfia os dedos
pelos meus cabelos,
quase posso lhe ouvir os pensamentos...

na espiral da fumaça silenciosa
seus desejos ociosos espreguiçam
...aceito seu recado...

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

indulto


a hora nona que tece o negro manto,
cobre a carne vestida de espanto;
é um quarto de tempo onde habita a razão,
o sentido desligado da emoção
nessa cela que até as paredes oram
e pouco se vê os olhos que choram.
nem a chave mestra incontrolável
alcança os ponteiros ou cabe no ferrolho,
há um vagido reprimido, indelével
que escorre em poesia e prece; um em cada olho.


não se fecha em desuso como rara,
mas dorme no silêncio que em si apara;
sei que arde como brasa encoberta
revirada nas luas por ela desperta.
não importa se o manto é fiado de segredos,
a cada um cabe os seus próprios medos,
mas se a hora nona se evidencia
há de ser pela procela que principia,
não se pode esconder vendavais cortantes
desarmonia febril de delirantes;
quando tudo é erigido em culto
para merecer unicamente um indulto.

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

a dor que me rói


a dor que ora me rói
não tem feridas aparentes
é uma dor doida de tão doída
que a alma dilacera e mói
até eu trincar os dentes

a dor dói e não sangra vermelho
não tem cortes mas escorre
e eu defronte a esse espelho
molho de lágrimas e porre
a dor que me machuca

sem parar, dói a dor e cutuca
o desejo de não mais desejar
a ânsia louca de amar
o amor que muito maltrata
a alma presa no bico da sinuca

como rasgar a dor ao meio
se nem o punhal de prata
faz doer mais que esse veio
aberto no vão dos seios
a me definhar como vira-lata

dói como enfarte agudo
essa dor sem coração
não mitiga um segundo
porque tem a fome do mundo
de amor, jamais de razão

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Doce saudade

dos seus beijos vou sentir
uma bruta saudade
dos seus braços vou ficar orfã
e do seu corpo tão ousado
vou ter delírios quando desejar

iguaria como seus beijos
não há em confeitarias
nem similar para meu paladar
a prisão dos seus abraços
tem requintes de tortura e prazer
e não há outra que eu queira provar

quanto a procela do seu cavalgar
não vou apagar as marcas
que cicatrizam no meu corpo
para sempre me lembrar com apetite
da fome que elas saciaram

as lembranças contarão os segredos
que um dia eu tive medo
elas encherão de alegrias
os dias e noites em que a solidão
vier morar no meu peito

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Existencial

Em que fórum foi assentado o contrato dessa minha existência?
Quando e como foi celebrado se já não me lembro de fato de ter lido a minuta...ou ter assinado nada...
Carrego quase meio século de estações desorientadas, não aprendi recolher as folhas dos outonos e vi poucas primaveras floridas, tenho as pernas doloridas pelo percurso inclemente, por dias inteiros de penitências.
Por descaso ou esquecimento nasci com neura de poeta e rondei metade dessa existência pelas letras, furtando ora aqui ora ali a emoção que campeia solta pelo meu coração adoentado de amor...
Não sei se brindo ou se abomino a experiência de tantos orgasmos; se esqueço os desejos que adormecem meus sentidos ou me orgulho do aprendizado do meu corpo ou ainda da minha cabeça que o consegue dominar.
Ando tonta de ter a visão cravada no amanhã imediato, enquanto me equilibro no estribo deste percurso que vai chegando ao fim...olho-me sem acreditar, que cheguei até aqui, e a que custo!
Com efeito, sei que somei conhecimentos, estudei o que mais me interessou. Não freqüentei os bancos da faculdade, mas de tudo já fiz um pouco; e as minhas mãos pequenas sempre me foram eficientes. Espalhei beleza pelas fachadas da cidade, rabisquei meus sonhos em preto e branco... furei os olhos da realidade pra poder sonhar sem intromissões...
O corpo que veste a minh´alma inquieta é o resumo da vida mal dormida, e se passeio nua nessa passarela...não há como não exibir os arranhões...e os hematomas, recomendo então, um tapa olho para os censores curiosos e cegueira providencial aos déspotas.
Socorrem ao meu grito um batalhão de elementais...fadas...duedes e gnomos...
Porém mais lúcida que ontem, menos senil do que amanhã, que pode não chegar; esmurro hoje as farpas dos olhos que chispam na minha direção, quebro as juras dos dardos inflamados que cospem fogo na minha lira.
Não tenho asas, não exalo perfume de hipocrisia, não assino com pedigree; definho à sombra da minha vigorosa solidão.
Sei que salto aos olhos dos escribas, não pela proficiência da fala,e sim pela ousadia em desfilar minha gramática quase rudimentar, meu vocabulário roto e exibir sorrisos fartos, distribuídos sem censura.
Queimam meus dedos na rotina das letras que despejo nas imagens, não menos ruidosas que minhas palavras,nessa tela de angústias.
Me pergunto se tanto empenho terá valido a pena. Rasgar a alma, romper com o silêncio frio do papel e cantar aos quadrantes os mistérios das minhas emoções...
Me dei conta que estacionei minha tola vida entre quatro paredes pardas, presa ao fio da minha própria ignorância; me deixei amordaçar. E finalmente começo a compreender que botar a cara na janela para respirar é tudo que careço nesse momento, quando as amarras dos meus pulsos comprimem
as palavras e dispersam nos ventos a inspiração...companheira necessária
das horas abertas e das noites fechadas...malvada que botou o pé na estrada
e sem marcar a data do regresso...levou um pedaço de mim...
Onde andará a chave da cela em que aprisionei a minha juventude, os meus ideais? Deixei meus projetos adormecerem e meus sonhos mofarem num baú...hoje são perversos quaisquer desejos; porque o tempo é cruel em mostrar que a vida já tem seus planos traçados, se não coloquei nos trilhos os meus sonhos, melhor deixá-los morrer de vez...
Adeus às belas fachadas que morreram antes de nascer quando desisti da arquitetura...adeus aos dias de luta pela política que não enfrentei...adeus
paixão da minha vida...a escola de artes...ao meu sonho de pintar como Renoir...Michelângelo...El Greco...Da Vinci...o que sobrou de mim...essa poeta sonhadora...de parca cultura...vocabulário roto... a alma livre...
que se atira inconseqüente na lira...com sede de viver...respirar a vida
pela veia que transborda incessante...
Que não me digam que é falta de esperança ou coragem,olhar o escorrer das horas e não tentar detê-las, isso não se pode mesmo,porém fazer o tempo e se fazer acontecer dentro do tempo é tarefa que exige determinação, a coragem e a esperança brilham quando o esmorecimento não nos toma a alma.
Quando já percorremos um longo caminho e olhamos o horizonte já tão próximo,a ansiedade de viver cada minuto como se fosse o último; e pode ser,
nos toma de assalto, principalmente quando olhamos pra traz e percebemos que a corrida tá chegando ao fim...a pergunta que ronda nossa cabeça é: será que ainda há tempo para ser feliz?
É enfadonho ouvir se falar dos temores que vão na alma...logo chegarão palavras de consolo...alguém me puxando as orelhas e tentando me segurar nas minhas próprias palavras de otimismo cantadas em dias de extremas alegria...entretanto não há como medir o tamanho do vazio que me separa dos meus sorrisos no espaço de um dia e uma noite...os olhos da realidade sempre se reconstroem...


18-07-04

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

poesia bruta


esse oco que me apavora
retém os olhos nas oscilações
me procuro e só encontro indagações
que aos poucos me devora

engasgo com a rima mal feita
perdi as palavras no vão da porta
e suspiro por uma ou outra morta
nenhuma me é hoje a eleita

ainda no espelho me procuro
do estanho só vejo a transparência
que acusa de mim, eterna ausência
poesia latente em estado bruto

sufocada em revelações marginais
morro nos meus verbos mais abissais

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Sem prioridades


Ando passando longe das vontades,
Declarando guerra às conversas;
Assumindo pequenas maldades
Longe do foco que observas.

Não deixo registro e viro a mesa;
Derramo os versos pelo chão,
Descarto sem muita certeza
A prioridade do meu coração.

Repenso os recados rabiscados,
Quebro o porta retrato fumê;
Seus olhos ali envenenados
Falam de outras coisas, não de você.

Aprisionei os desejos num livro,
Entre uma e outra confissão;
Enquanto das lembranças me livro
Até recobrar novamente a razão.

terça-feira, 10 de novembro de 2009

cumplicidade


minhas entranhas só a ti entrego
só para teus beijos me dou
mesmo que pareça que me nego
quando o mundo me deseja, e vou


há entre nós um trato secreto;
meu perfume a todos pertence,
o néctar só para teu bico ereto
que até a gravidade vence.


juro que antes de ao mundo sorrir
é para teus beijos que me guardo
só assim o mundo pode me sentir
acariciar e sentir o grito bardo


teus beijos poemas escorrendo mel
lambuzam minha pele sob o dossel

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Paixão ardida

Suspira dentro da boca sinuosa,
Um turbilhão de inconfessos desejos.
Agoniza o beijo que a alma revira
Num apelo tímido de tantos ensejos.

Queimam-lhe as noites de castidade
Enquanto cavalga solitária sua paixão,
Que de tão cruel devora-lhe a fidelidade
E aos trancos macera-lhe o coração.

Seu dia boceja tão bêbado quanto insone,
Arrasta-se inerme crivada de poesias
A arderem fundo como se fora fome.

De pupilas dilatadas e o peito arquejante
Sua vida é escorrida em fiapos sem serventia,
Ainda assim, as vezes, galopa esfuziante.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

O que eu quero

Eu quero um amor que entre pela porta da frente
De mãos vazias e a cabeça cheia de loucuras;
Maduro nas decisões e menino o suficiente,
Pra brincar com poças d´água e chutar latas.

Um homem atrevido e livre de preconceitos
Que saiba olhar ao redor de mim, sorrir do meu sorriso
Rir para o meu riso
Que saiba chorar, e me deixe chorar sem censura.

Um homem que não me crive de perguntas
Que compreenda os meus silêncios,
E que tenha consigo seus segredos pra respeitar os meus
Que saiba calar e falar na hora certa.

Um homem que saiba ser amigo,
Que saiba sair e voltar assim que a saudade bater.
Que não se guie pelos ponteiros,
Que conheça o caminho dos meus braços
Neles se aninhe, mas nunca os algeme,
Ou censure minhas escolhas.

Eu quero um homem nada apressado,
Que saiba o que quer, e aceite meu querer.
Que seja terno e selvagem no lugar e hora certa,
Que fale o que pensa, mas pense no que fala
Que goste de ler e adube a inteligência.

Eu quero um homem maduro e menino
Que nunca me deixe constrangida,
Que não seja meu credor diário
Que tenha a alma livre por excelência,
E goste da minha essência.

Um homem que seja meu como dele serei;
Sem algemas, sem alianças e sem contratos,
Ambos do mundo,
A despeito de toda incredulidade.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Vácuo

Era pra ser um poema lírico
desses que a gente namora diariamente
em cada minuto solenemente
dorme e acorda remoendo
e de tanto encenar, vira físico.

Podia ter sido um poema de amor
e se não desvendasse o mistério;
seria um soneto sedutor
por ocupar ao menos um hemisfério.

Morreu de tédio e sem alquimia
o que na pele não exalou certeza,
não abriu portas para a utopia,
não se mostrou com firmeza;
minguou sem pódio, sem primazia.

Era pra ser um poema perfeito
se não tivesse morrido de véspera
no sono revirado do leito.
Se tivesse se permitido a espera
do compasso afinado
seria o poema mais refinado.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Finesse

Foi-se o tempo pacato da candura,
a hora do recato e inocente compostura.
Ficou um talho aberto pela castração,
cerzido de retalho, atropelo e frustração.


Salve a meretriz que vai a luta;
essa infeliz que tem fama sem ser puta!
Riam sim dessa fulana, criatura hilária
de quem não se sabe a cama, mas a tem por otária.
Viva a doce prostituta que nesse teatro vil
só conhece a labuta, e o gesto servil.


Espuma na língua infame o fel da acusação,
vociferado desde o prenome, sem consternação.
Bravos! Morre a míngua e não sem suspiros
o sorriso com íngua, que viveu entre vampiros!