Meu diário de bordo

sexta-feira, 6 de julho de 2012

Absolvição




Por que não me tombas de vez?
Se teu frio em minha espinha passeia,
Batizes minha fronte suada.
Liberte-me das garras desse corpo cansado,
Dessa voz rouca, entrecortada.

Se te assentas à minha mesa,
Nesse convívio imposto e diário,
Cercas meus olhos, cala em mim as palavras;
Enquanto vertes absinto;
Que em doses me faze tragar.
Por que não me abrevias as horas?
Por que não me dissolves a essência,
Anula esse gosto hostil;
Que trago na boca amarga, 
Nos olhos de eterna ressaca?

Por que me dás o gozo do céu
Na alma branca, bailarina, criança?
E o fogo do inferno no corpo cativo;
Submisso e covarde...
Por que não me tombas de vez
Sem aliança, sem véus, 
Sem herança
No silêncio que me amanhece,
Ou na prece que em mim anoitece?

Por que me gela os pés e as mãos,
Acende em brasas o coração,
Limitas meus passos,
Me aprisionas em esperanças miúdas?
Por que me espreitas curiosa,
Me impõe horas escuras, sizudas?
Por que me abraças no leito;
Ameaças a minha razão?

Me tombe de vez no sangue vertido,
Faças cessar o desamor e a luta;
Há de haver algum sentido,
Nessa guerra de desamor e desesperança.
Faças cessar o gemido abafado;
O choro escondido atrás do riso,
Crave de vez meus olhos, nesse horizonte sem rumo,
Abarque meus sonhos vivos e vazios,
Cesse dos meus ossos, esse imenso frio

A mulher que ama




A mulher que ama tem um rio apressado
A correr pelas veias náufragas
Lavas de um vulcão descontrolado
Se derramando sobre o corpo tépido
Só de brilhos se veste seus olhos amantes
Marejados de alegria 
Ou transbordando choros arfantes,
Lapidados brilhantes
A mulher que ama destoa 
Se doa
Ri a toa
Volita sem asas
Tem o ventre em brasas
Não segura o seio que palpita
E sob a roupa se agita
Empina
Desatina
A mulher que ama perde o chão
Tem acessos de paixão
Não tem freios no coração
De amor de alimenta
Se sustenta
Se curva às esperas
Perde a fala, só vê a realeza
A beleza do seu amor
A mulher que ama se multiplica
Se santifica
Porque no amor se encanta
E com zelo 
Para ele canta
O amor de uma mulher é jóia sem preço
Entregue e revirada
Inteira, ao certo e do avesso

quinta-feira, 14 de junho de 2012

acabaria e acabou




acabaria, a gente sabia
como porta que bate
como sopro que se vai
e deixa cinzas no cinzeiro

acabaria, a gente sabia
pela porta que entrou
como final de um livro 
alegria compartilhada que esgotou

acabaria e acabou

terça-feira, 29 de maio de 2012

Ele



Ele me traga
Ele me usa
Ele não me afaga


Ele me consome
Ele me acusa
Ele não me come


Ele me constrange
Ele me deprime
Ele não se define


Ele me desarma
Ele me apronta
Ele sempre me afronta


Não me revelo
Não me demito
Vivo pelo mito

domingo, 27 de maio de 2012

Sol e Lua




Era um dia e uma noite
De dia o silêncio
A noite se servia de barulhos
Ambos se desencontravam
como sol e lua
mas assim como o sol 
enchia de luz e paz
a noite fervia de escuridão
atropelada de sons


De dia a vida sorria
ao compasso elegante
de brilhos carinhosos
enquanto a noite 
entrava furiosa
batendo o pé
rasgando toda alegria


Um dia se casaram 
de pirraça para o mundo.
O sol entristeceu 
por causa do barulho
e a lua se enfureceu 
com o silêncio
Nunca mais a vida foi feliz.

sábado, 26 de maio de 2012

Diet



Estou comendo angústias
Digerindo desilusões tantas
E engordando
engordando...


Não há regime 
que mate essa fome
de comer 
e comer sem parar.


Estou bebendo noite e dia
mágoas amargas
amarguras borbulhantes


Todos os dias
devoro tristezas
embrulhadas em sorrisos
recheadas de calorias
delícias doces
que dessalguem as lágrimas
ou aplaquem desejos


O colesterol sobe
o ponteiro sobe
as roupas apertam
e eu comendo sem parar
minhas dores diárias

Ela voltou!!




Ontem quando o sono me pesava sobre as pálpebras ela me arrastou da cama, desdenhando do friozinho e do adiantado da hora. Queria minha companhia, minhas mãos geladas além da minha emoção; que embora estivesse embolorada, sonada e um tantinho embrutecida. 
Cedi. Afinal uma amizade de quase uma vida inteira não podia ser ignorada. Ela que sempre me foi fiel, que sempre me acalentou quando eu sozinha estava, ou em lágrimas me debulhava; estava ali, agora, me procurando, me querendo e quase que desesperadamente me desejando a companhia.
Levantei-me tropeçando nos pés pois o remedinho demorara, mas já fazia efeito. Lá fui eu de caneta e diário em punho anotar suas tão esperadas palavras. Ela falou, falou e eu anotando sem parar. Ela realmente estava com saudades; pois não mais me largou e está aqui comigo abraçada à minha mão, que já não está mais gelada. Ela acariciou a minha alma como há muito não fazia.
Estamos nos entendendo de novo, porque  acho que ela voltou para ficar.
Que se dane o mundo. Que se dane o frio, o calor, a sede, a fome; com ela nada me falta.
Quero morrer abraçada à minha inspiração; ela é a alma que me anima, a sabedoria que me guia, o alimento que me sustenta e a companhia que me faz sentir prazer em viver.

sábado, 19 de maio de 2012

Como explicar?




Como explicar essa agonia permanente
Essa busca incessante por um abraço
Essa sensação eminente 
De não ter um ombro...um laço
Onde contabilizo minhas conquistas
Em que parte dessa trilha
Perdi a estrada e as pistas
Da vida que em mim fervilha

Como justificar o gesto carente
O escrever tão denso
O comportamento quase adolescente
A mania de dizer tudo que penso
Como me desculpar por essa angústia
Essa quase monotonia
De querer sustentar a astúcia
Me escondendo atrás da melancolia

Em que hora abracei a solidão
E deixei o cansaço me tomar
Talvez tenha enterrado meu coração
Esquecido o gosto de amar
Como entender essa vontade louca
De mastigar versos convulsivamente
Apertar as palavras na boca
Soltar as emoções como louca
E me derramar tão solenemente

Como controlar essa ansiedade
Se ela me assalta noite e dia
Enche os minhas horas de saudade
Me faz sentir a cama vazia

Já não fujo dos meus desejos
Aceito-os todos placidamente
Algumas vezes amanso-os nos solfejos
Ou deságuo-os mansamente
Nas minhas linhas insinuantes

Como não versejar de forma abundante
Se já não me lembro como era antes
Só sei que trago o peito desatinado
As esperanças todas partidas
O traçado desalinhado
De tantas idas e vindas

Como explicar o que foge a razão
Se me perdi nas torrentes, mares e rios
Nos sentimentos em profusão
Caminhando entre delírios e desvarios
Como explicar esse veia que ferve
Essa fuga constante da realidade
A lucidez invadida pela verve
Como marca de personalidade

sexta-feira, 18 de maio de 2012

Se chegar




Se chegar, não estranhe os sinos;
Pendurados  na varanda,
A porta levemente encostada,
Só os ventos me trazem hinos.
Não censure minha liberdade franca,
A voz rouca e arrastada,
Tenho canários aprisionados,
Grandes gaiolas enfeitadas,
Ando descalça e despida,
A me conhecer despojada.

Se chegar, dispa-se na entrada,
Traga os olhos lavados;
No sereno das madrugadas,
Traga beijos orvalhados,
Abraços amplamente espaçosos,
Suspiros generosos,
Sussurros secretos, seletos.

Se chegar quando eu adormecer,
Não acorde meus sonhos,
Adentra por eles a viver,
Reconheço-os tristonhos.
Há ainda alguns a dividir,
Claramente delicados,
É só pegar-me pelas mãos,
Pela minha face a sorrir,
E os meneios agitados;
Saberá em que desvãos
Encontrará o meu fremir

quinta-feira, 10 de maio de 2012

A melhor idade




A melhor idade não é essa estampada na face
Não é essa que se conta nos calendários
Não é essa que se conta em cada ruga adquirida
Em cada dia dessa vida vivido
A melhor idade é a que escondemos na face
Nos nossos mergulhos solitários
Na verdade ao tempo dirigida
No tempo que guarda de tudo o sentido
A melhor idade é quando estamos amando
Quando a alma se torna leve
E o espírito não impõe a razão
A melhor idade é feita de primaveras
Quando o corpo perde o comando
Quando o dia morre na noite que fica breve
Para todos os espasmos do coração
No provar de todas as quimeras
A melhor idade é essa que não tem cura
Que a gente guarda com saudade
Porque sabe que é uma loucura
Essa que atravessa na nossa realidade
Não se importa com os ponteiros
Não se reflete nos espelhos
A melhor idade nos faz inteiros
Avesso aos conselhos
Felizes e inconseqüentes
Eternos adolescentes.

quinta-feira, 3 de maio de 2012

abraço calculado



abraça minhas arestas
o medo calculado
tateia meus cantos escuros
um forte desejo de romper véus
cá onde os estilhaços brilham aos cacos,
atraio chuvas, pingando nos espelhos

atravesso adagas na voz
rasgo elos, ato nós
tenho joelhos ralados pela fé
as mãos estendidas em conchas
para colher chuvas 
mas esqueço abraços no sereno
onde ainda é permitido sonhar

segunda-feira, 30 de abril de 2012

Despedida




Ele virou-se e foi andando sem aceno, sem palavras, qual um dia que parte sem aviso.
Era verão, uma tarde quente, sol a pino; seus passos lentos se afastaram quase sem deixar rastros. Virava-se ali uma página de muitas histórias, quase todas acabadas só a última ficou sem final, faltou paixão para assinar os versos que eu ainda lhe compunha.
Olhei ao redor; na varanda a rede parecia desbotada, as flores abriram todas na mesma manhã, o piso gasto, brilhava. Da cozinha o cheiro do café convidava à mesa ainda posta e  pelo corredor o aroma de banho impregnava o ar.
Ele se foi como chegara; leve e sem se fazer notar. Naquele quarto onde muitas gargalhadas ecoaram, havia um silêncio absurdo contrastando com os meigos sorrisos ainda impressos, pendurados nas paredes, só os sussurros me afligiam a lembrança.
Deixei os olhos presos no espelho frio, de onde ele nunca mais saiu, atei as mãos aos lençóis ardentes de recordações só minhas.
Quem sabe o tempo dure infinitamente com esse sabor de até breve.

domingo, 29 de abril de 2012

A nona e eu



Nossa cumplicidade não passa do primeiro ato, muito diferente de Beethovem; que toca pra mim da primeira à última nota da nona sinfonia.
   Por pura ironia, o "cumplice", está impregnado na minha pele e nem de longe ele conhece o "dolce gabana" que se estende nos meus edredons; falta a linguagem além das palavras.
   Só eu conheço os alegros e andantes que retumbam no meu peito. Só eu me arrepio com os celos, que me levam para além do infinito, sonhar com a imensidão, porque sou tão surda quanto ele, mas percebo pela vibração os sons, sinto a mesma ebulição cá dentro.
   Enquanto minh'alma comunga com o universo; essa enorme senda de paixões e mergulha na necessidade de ficar prenhe, meu corpo se esconde dentro dos mais abusivos silêncios; fico gerando e maturando meus anseios. Não me basto, eu sei, mas me arrasto dentro das horas pra me fazer canção com cada nota que me arde sentida dentro do peito.
    Onde eu estava enquanto ele compunha para mim? Quiçá eu boiasse sob as estrelas, ouvindo seus dedos em toques perfeitos suplicando nas teclas do piano. Talvez eu não soubesse que cabia dentro da sinfonia, ele certamente  não sabia que eu existia.
    Nunca passamos do primeiro ato, mas ele vive em mim.
    Ele toca e me toca, tanto mais quando exerce seu fascínio sobre mim de onde mais nem eu sei onde encontrar, já que é pó e sonho misturado a realidade bruta, que se assenta na minha presença e me ouve calado os choros desatinados. É aqui, que ele se confunde entre o lúdico e a realidade, na minha mais cruel saudade...
    Uma desabalada correria acelera as minhas pulsações, me remete ao tempo que só a nós pertece, entre o sonho e veleidade. Fecho em círculos imprecisos as lembranças e me guardo pura nos acordes da nossa melodia.

sexta-feira, 27 de abril de 2012

Atrevas a me roubar, vai!



     Não roubas somente os meus textos, rouba-me as horas de prazer que dediquei a escrever minhas experiências. Roubas a emoção que apertava meu peito em cada palavra que eu digitei.
   Não conheces o lugar onde eu estive, os olhares que me olharam  e ainda assim, roubas de mim os flertes, os amores, os abraços e até a minhas pulsações ansiosas.
   Não estavas no meu leito, não conheces o corpo do meu amado e ainda assim falas dele, como se fosse teu. Não provaste o sabor desse beijo que é meu, mas insistes em falar dele, pelas minhas palavras.
Por que queres sentir as minhas emoções, as minhas angústias? Por que não te fechas em teu mundo e mergulha na tua intimidade para sentir as tuas próprias sensações?
   Ah! Como podes querer que eu te respeite, quando nem a ti respeitas, te embrenhando nas minhas emoções, navegando nos meus sentimentos como se fossem os teus; rabiscando sobre as minhas palavras, tomando sem pudor o que eu vivi, para ti?
   Quantas horas debruçadas sobre o teclado teci essas tramas que bailavam na minha memória, quantas horas sonhei esses sonhos que hoje dizes que são teus? Nem as lágrimas que derramei enquanto digitava com o coração apertando pelas minhas lembranças tu conheces, então como podes sair por aí desfilando as minhas dores como se fossem tuas e escritas sem nenhum um soluço? Como podes assinar as minhas vivências?
   Não roubas só os meus textos, tentas roubar a minh'alma para te aventurares por um mundo que não conheces, por desejos que não experimentastes. Não saberás o gosto dessa magia que é ter a alma livre como um pássaro. Não saberás como se realizar em sonhos o que não podes provar no dia a dia. Não terás esse mesmo sorriso que tenho agora nos lábios, porque não tens a mesma veia que ferve como a minha, ainda me enches de motivos para escorrer sem parar.
   Rouba-me se és capaz! Quanto mais tu passeias como sombra a espreita de uma vítima, mais eu sinto gana de martelar essas teclas para te denunciar!


(Na luta pela moralização da net, e defesa dos escritores e artistas)

quinta-feira, 19 de abril de 2012

Deixarei contigo minh'alma




Quando a vida abandonar o meu corpo,
e num último sopro eu tombar; muitas vozes se levantarão, algumas em lamentos, outras em contentamento.
Na minha face sorridente; ficará intacta a minha expressão de insensatez.


Terei nos lábios,
um riso leve de quem se ausenta,
abandona a viuvez, 
para adentrar o átrio do bom viver.
meus olhos não estarão olhando os olhos dos que me rodeiam...
com as pálpebras levemente abaixadas, 
estarão como quem vaga em busca do infinito...
como quem sonha com o lume das estrelas...
ou simplesmente ouve uma bela sinfonia...
ainda serão os mesmos olhos sonhadores...
porém calados.


Quando a vida se extinguir dentro dessas minhas veias pulsantes...
terei adentrado inteira no mar com minhas águas doces, que passaram por esta vida sulcando a terra, deslizando sobre seixos; 
para morrer de encontro às estas águas salgadas de  lágrimas.


Deixarei rabiscado nas paredes todas por onde passar, versos e trovas em teu louvor...
nas nuvens que hão de chorar pela minha partida, deixarei seu nome gravado em flocos gigantes, para que o mundo veja quão belas foram as prosas que juntei nesse mosaico onde ele estará a  figurar.


Deixarei para ti, meus canteiros de sonhos cultivados com carinho...
deixarei lembranças soltas em muitas páginas do meu diário, abarrotado de ilusões...
inúmeras canções compostas em tantas noites de esperanças, de juras..
muitos mistérios gravados com letras douradas...
que só por ti serão decifrados.


Quando a vida, esquecer
 que eu existo, e me atirar no vale dos adormecidos...
irei semear meus sonhos em outros jardins...
passear por outras primaveras.


Deixo contigo a minh´alma; essência de mim...que não poderá seguir sem a cumplicidade da tua...

quarta-feira, 18 de abril de 2012

Entre o santo e o profano




Canta serestas para mim, enquanto ainda me visto de luar, dedica-me teus versos enquanto me tens pálida sob a luz dos teus castiçais.
É tão pouco o que tenho, é tão frágil o tempo lá fora; se soubesses que em cada volta do ponteiro me afasto quase sem volta.
Em águas densas e tensas me arrasto mar adentro, sem atóis e sem ilhas; a vida em mim naufraga.
Nem que me dissecasses em versos e prosas,  entenderias minha natureza distante, exuberante, excitante, hesitante; não mergulharias nas minhas águas, porque jamais entenderias a profundidade do meu ser, nem saberias identificar ou enfrentarias a dualidade da minha essência.
Em comunhão com a natureza que se agita na minha essência, me pego por vezes aflita, entre águas e fráguas, me acomodo entre uma e outra, não sem sair de um estado para o outro transbordada ou em chamas; eis que comungo comigo, não sem antes sofrer o impacto das mudanças contínuas e tão rápidas.
Fala-me dos teus campos, dos teus sonhos, aflora em mim as tuas lembranças, apascenta as minhas ânsias para que entre águas revoltas e labaredas eu encontre um terno descans, doma meus mares, cerca as chamas que me invadem, dá-me pouso para o corpo e espírito em eterna confusão.
Não espero que cavalgues nas crinas furiosas da minha natureza que abusa, não conto com o dia que hás de te acender nas entranhas dessa fogueira que me lambe o céu porque só sei sorrir com as espumas brancas que beijam meus pés, mas hei de partir no ventre dessa imensidão que me batiza e me engole.
Me dê coisas simples e pequenas, delicadezas de gestos, miudezas de certezas; ando sem fôlego me cansei dos bramidos, me reviro em gemidos pelo arrasto da dualidade que me consome, queimo no inferno das minhas angústias e desejos e me afogo na densidade da minha profundidade.
Caminho entre o santo e o profano, me quero anjo e me quero demônio; 
me batizo nos becos da minha castidade e me puno nas impurezas da minha sinceridade.
Hei de voltar ao centro da terra; berço da minha natureza e só no repouso da terra, hei de acalmar minhas guerras.

terça-feira, 17 de abril de 2012

Abraço






Cerca-me com abraços, há dentro desse laço apertado uma necessidade imensa de sentir o calor não só do corpo, mas da alma...
Cerca meu corpo com braços firmes, guarda-me em silêncio dentro desse abraço que tanto diz ao meu corpo, à minha alma atribulada...
Deixa que eu mergulhe por inteiro dentro desse abraço, sem perguntas... 
Deixa que eu cerre o olhos e só sinta o pulsar dos nossos corações, que eu sinta o  sangue correr agitado... acolhe-me, até que eu fique em paz.
Que eu perceba na pele a irrigação dos vasos e de olhos fechados perceba o riso feliz nos nossos lábios emudecidos...
Mesmo que quisesse explicar a magia e o sentimento que inunda-me nessa hora, não encontraria palavras...e para que explicar, se é só mesmo pra sentir...
O mundo para nesse abraço, nem os ponteiros importam, tudo fica dispensável diante da infinidade que se eterniza nesses poucos instantes...
Que tudo mais espere; enquanto eu permanecer contida entre esses braços, a vida fica solta, as almas também se estreitam como os corpos, em pactos silentes...navegam as emoções num mundo de segundos preciosos...
Fecha os olhos e me abraça novamente...sinta minha vida aportada no seu regaço...sinta a minha vida menina sorrindo, sabendo-se amada sem censura, sem questionamentos...sinta minha alma passarinha reconhecendo a doçura do ninho...
Fecha os olhos e deixa que eu voe nessa hora, presa nos seus braços, para ganhar o mundo com a liberdade que ninguém pode me tomar...
Fecha os olhos e sinta-me...estarei dentro do seu abraço sempre que fechar os braços ao redor do seu corpo...sei que vai me buscar dentro deles...

quarta-feira, 11 de abril de 2012

Renovando os móveis

Continuando a renovar os móveis, as etapas da mesa:


Aqui com os pés já pintados e lixando a fórmica:




Aí depois de pronta ficou assim:




Todo o conjunto ( mesa e cadeiras ) pronto ficou assim:




Aprovadíssimo por todos.

quarta-feira, 21 de março de 2012

customização

Ganhei uma sandália gostosa, mas preta...aí decidi deixá-la mais alegre, e ela ficou assim depois de customizada.
Não fiz o antes, que pena, estava tão ansiosa para aprontá-la que esqueci de clicar.

pintando o sete

a casa anda precisando de reparos
                                                                            o antes
                                                                          e o depois

quinta-feira, 15 de março de 2012

Algumas vezes


                                 Foto Angélica




Algumas vezes tudo que se quer
é queimar etapas...
acordar num dia e saber 
que o rio mudou de curso...
que apesar de amanhecer novamente...
tudo será diferente...
Quando o sol chegar haverá novidades 
para se contar, 
os raios podem entrar pelas
 janelas escancaradas...não há de se ter
 portas trancadas, é possível olhar
 para os jardins e ver neles as flores intactas, 
sem o toque violento das 
mãos que as ferem...
Caminhar livre das amarras...
respirar sem travas...
sem o nó na garganta...
saber que é dia novamente 
e que ainda que ele 
seja breve, tem dentro das 
suas horas pequenas surpresas..
algumas alegrias que 
não se precisa esconder para sorrir...
Constatar que apesar de estar 
acinzentado e da chuva fina 
que insiste em não parar de cair...
dá um vontade enorme de sair pra
 caminhar ao redor da lagoa...
observar os pingos da chuva 
caindo sobre as águas mansas...
andar e andar sob essa chuvinha 
até que a roupa cole no corpo...
curtir o tempo passando sem ter 
noção das horas...pela falta do brilho
 do sol...e mesmo sem o calor 
do sol...manter o bom humor...
Poder andar sem se preocupar 
em parar para tomar fôlego...
conseguir fazer o ar entrar pelas narinas...
penetrar nos pulmões...manter o corpo ereto...calmo...os passos leves...
Poder se jogar no sofá por 
horas a fio, sem fazer nada...
simplesmente comendo pipoca 
e assistindo tv, lendo ou ouvindo 
música...sem vozerio ao redor...
sem interrupções com perguntas do tipo: 
Vai vegetar hoje?
Tomar banho de porta aberta...
cantar alto debaixo do chuveiro sem 
medo da crítica...olhar no espelho 
de cara lavada e não enxergar motivos
 para me deprimir...
Andar descalça pra receber
energia da terra... despir das roupas pra sentir a sensação de liberdade total...
sem olhares curiosos ou acusadores...
não ter pressa nos gestos...
não ter ponteiros para guiar...
Algumas vezes tudo que se quer...
é não ter regras...responsabilidades...
não se ter olhares inquisidores...
poder viver e respirar cada 
minuto sem se importar se 
haverá depois ou amanhã...
Algumas vezes tudo que se quer
é ser a gente mesmo...
sem ter que dar satisfações ou 
respostas para o mundo...

segunda-feira, 5 de março de 2012

tempo,tempo,tempo


Foto Angélica


Pareciam milênios e hoje
é como poeira fina no vão do dedos.
Parecia que pra sempre era pouco
e o hoje custa a passar.
Ontem, o hoje me parecia tão distante
e agora tropeço nas horas, segundos
que voam aos atropelos.
Lá se foram anos como ventos furiosos;
varrendo sonhos, juventude e a vida.
Fica um gosto de vi, não vivi
acabou antes de ser degustado.

domingo, 4 de março de 2012

Mulher




Não se perca da sua essência.
A doçura é e será uma arma sempre.
Mantenha os olhos vigilantes,
E o mistério nos gestos.
No salto ou na rasteira
nunca perca a elegância.
Com um riso largo ou uma gargalhada
bem colocados à cada ocasião;
mostre alegria sem vulgaridade.
Jamais seja mãe sem muito desejar;
mas se acontecer, libere o instinto.


Não se permita ser manipulada;
pelos modernismos,
pela falsa beleza,
pelo prazer fácil, 
pela perda de identidade.
Ouça seu coração, sua razão,
sinta e respire a vida em si primeiramente.


Você gera vida, você educa, 
você perpetua a espécie e 
o mundo espera o melhor de você;
se injustiçada: lute por justiça
se decepcionada: siga em frente
se magoada : perdoa
Você semeia o que espera encontrar!

sábado, 25 de fevereiro de 2012

Cuida de mim


Apascenta meus olhos, Senhor,
Para eu não me perder
Durante as tempestades e a escuridão.
Toma as rédeas do meu caminhar, Senhor,
Para eu não mais temer o alvorecer,
Ou nos labirintos da solidão
Distanciar-me do teu amor.
Cuida dos meus olhos baços, Senhor,
Para que eu te reconheça os traços, 
Na minha emoção diária, 
Nessa bênção solitária
De amor que verte indefinido.
Alimenta meu coração, Senhor meu,
Para que eu não me porte como ateu, 
Para que eu não caminhe vacilante.
Que meu amor seja constante,
De ti digna todo instante.
Apaga do meu olhar a agonia,
Dos meus dias a melancolia,
Acende nos meus olhos o temor,
A fé do verdadeiro vencedor.


Apascenta meus olhos, Senhor,
Para que além da rosa,
Eu também veja os espinhos,
Mas não me fira no rancor,
Ou deixe de ser generosa 
E sempre farta de carinhos.
Cuida desses olhos feiticeiros,
Amorosos pares traiçoeiros
Que embrenhados nas palavras e poesias
Marejam imersos em fantasias.
Naufraga meus olhos reticentes
Nas certezas auto-suficientes, 
Nos desejos de obediência,
E abrevia Senhor, minha experiência.


Aceita Senhor, minha oração,
Faz novo o meu coração,
Pleno de gozo e louvor.
Contempla minha face em dor,
Nas horas que mais padeço,
Ama-me como eu não mereço.
E aos meus olhos indisciplinados;
Rega com tua sabedoria;
Para que em votos renovados
Eu me desvencilhe da apatia
E me entregue sem covardia
Aos teus desígnios abençoados.






segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Réquiem



Minha alma se foi 
A beber de sua fonte viva 
Não mais retornou 
Meu corpo murchou 
Secaram-me os ossos 
Rios me brotam na face 


Que badalem os sinos 
O aroma das velas 
Me invadam as narinas 
O torpor da noite 
Não mais termine 


Quem me tocará 
Um réquiem 
No anoitecer da vida?

domingo, 12 de fevereiro de 2012

Quando voce chegar




Quando você chegar 
Entre e tranque a porta 
Espalhe sons pelo ar 
Você chegar é o que importa 
Então, jogue as chaves fora 
Cante alto, toque o badalo do sino 
Não se importe com a hora 
Seja somente meu menino 


Traga consigo as alegrias e os instrumentos 
Não se esqueça dos quadros e aquarelas 
Vamos pintar muitos momentos 
Rascunhar novas mazelas 


Quando você chegar 
Acenda as chamas dos castiçais 
Queime as contas a pagar 
E muitos incensos florais 
Terei flores em todos os vasos 
A cama de cetim perfumada 
Para viver enfim muitos casos 
De alma e cara lavada 
Você traz as suas fantasias 
Eu me preparo com esmero 
Recheada de poesias 
E amor em exagero

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

O que dirias



Dirias que choro estrelas 
No adormecer dos sóis 
E que desperto em cores 
No amanhecer das luas 
Que orvalho no frescor das manhãs 
Cintilando pelas folhas soltas 
Dirias que broto nas rochas 
E lentamente escorro para o mar 
Dirias que borbulho 
Nas taças de champagne 
E suave e lentamente te embriago 
Que cavalgo nas patas 
Dos mais velozes corcéis 
Dirias que relampeio 
Durante os temporais 
E sussurro nos ventos 
Que me multiplico 
Pelo pólem das flores 
Dirias que morro 
Em cada fim de frase 
Para renascer em cada nota 
De uma nova sinfonia 
Dirias então que vivo e morro 
Um pouco a cada dia 

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Metade





Fim de tarde...e não te achei 
Não viestes com a chuva... 
Nem com os ventos que soprei 
Sobrou no banco ...a luva... 
Não aqueceu minhas mãos 
Limpei a lágrima insistente 
Que me escorreu pelos vãos 
Da minha confissão renitente 


Sobraram estilhaços de mim 
Beijos embolorados 
Boca sem carmim 
Braços abandonados 
Dessa tua ausência sem fim 
Vem apanhar os meus retalhos 
Impregnados de saudade 
São teus estes borralhos 
Tua outra metade...

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Contemplando o próprio umbigo



Cheiro das flores do campo santo 
Aroma das velas crepitantes 
Entrego-me sem culpa 
A olhar o próprio umbigo 
Choram fantasmas velhos 
Meu gozo funesto 
Não mais bailam fadas e gnomos 
Sopra gélida a morte 
Refúgio dos intrépidos covardes 
Contemplo minhas desgraças 
Em atos e palavras 
Meu choro insensato 
Sem pudor no relato 
Danem-se as misérias do mundo 
Enquanto as minhas transbordam 
São minhas sim as feridas 
Que sem escrúpulos 
Passo os dias à lamber 

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Um brinde a teimosia

Só aos trancos e barrancos
Desato os nós travados na garganta;
Conto até dez mais uma vez,
Te desbanco e me acabo;
Porque atacada nos flancos,
Refreio o que não adianta.
Sobe, desce e escapa sem timidez;
...a fala impensada. Desanco e desabo

Pranto confuso, cara inchada,
Peito apertado e cara amarrada.
Conto as horas e desisto;
Pagamos com teimosia,
A tua e a minha mancada.
Dou a mão, mas não insisto,
 Queremos trégua. Será?
Do silêncio, não desistimos;
Brindemos pois, com ironia
O que a outra face nunca verá;
O choro enquanto sorrimos.

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Alegoria



Flutua sobre minha cabeça
foge sob meus pés 
e nem de longe o sei
ou sinto seu pulsar


Dorme na minha cama
aflige meus sonhos
assombra meus pesadelos
debocha dos meus pensamentos


Não o sei, não o detenho
mas está lá; no meu medo
todo o tempo martelando
encurtando meus dias

sábado, 21 de janeiro de 2012

Egos

E se cava trincheiras todos os dias...
nessa guerra de inimigos tolos...
de desejos insanos...de utopias
disputadas na roleta russa...
Mata -se e morre-se em cada página 
virada...em cada fim de frase...
em cada conversa mal dirigida...
Soma-se olho no olho descrenças...
vagas acusações...e a lâmina
afiada atravessa sem pudor a alma
que ousa ser livre...
admitir jamais que  possa ter voz
aquela que cresceu em rédeas curtas...
E onde entra o altar de oferendas,
o altar das juras e dos louvores...
se banal tornou todo o arsenal de palavras,
e quase tudo perdeu a graça diante
do que não se mistura...não carece de explicações...
Luta desigual...onde não há ganhadores nem os perdedores são 
definitivos...
Há um tempo de guerra de palavras...guerra de gestos...guerra de vaidades...de poder...mas a guerra entre a superação e a derrota é árdua 
e é travada diariamente sem armas...sem palavras...pela força...pela vontade...entre a carne e o espírito...
Volita o espírito...se alternando com
o corpo que rasteja...preso as amarras
e nessa guerra insana...onde os rasgos
se tornam feridas expostas...
a realidade se faz medida
em cada passo...
Enquanto não se vence a guerra,
enquanto somos inimigos de nós mesmos
 nosso ego continua a fazer estragos...
e a carne supera de longe o espírito
 que se debate entre um jejum e 
uma prece...é preciso se munir de 
forças...
dia chegará que a escolha será feita...
e cessarão as lutas...
e no vão das palavras...nada ficará
por dizer...que vençam as 
atitudes...

domingo, 1 de janeiro de 2012

Expressão

Angélica T. Almstadter


Uma ternura, um gesto
e meu avesso exposto;
obsoleto ou frio
explicitamente manifesto.


No rosto agora recomposto
surge como um rio,
a marca de expressão cumprida;
quando de leve sorrio.


A alma na palma em protesto,
vive e guarda o desafio
da emoção merecida;
no primordial gesto.