Meu diário de bordo

domingo, 18 de outubro de 2009

Cuspindo marimbondos


Estou cuspindo marimbondos
andando de senho derrubado
pés querendo comer kilômetros

Estou amarga pelos cômodos
a alma no corpo chumbado
concebendo logros aos metros

Estou andando em círculos fechados
pisando brasas, lambendo fogo
numa distância insuportável de ser

Estou menos viva e mais rude
suplicando que a solidão me abrace
nas noites e dias que fujo de viver

Fui aquém de mim, além do que pude,
e para a covardia não há disfarce
então, morro ou mato esse sofrer

Estou cuspindo marimbondos
não de fogo; de ferrões em brasa
que me saem queimando pela boca

Palavras rasgando a garganta
e outras tantas que não desentalo
envenenando-me até o talo

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Fórceps

Esvairam-se os mistérios
levados como pó, voaram
não deixaram sequer pegadas

Com eles, devaneios e ilusões
acalentadas secretamente
rasgadas a frio, sem emoções

Uma nesga de tristeza
me abate e joga ao solo
o refinado gosto da sutileza

Morte anunciada


A flor da pele todos os desejos
feneceram antes do tesão
se espalhar pelo ambiente


Na língua calada por beijos
a falsa certeza tolheu a ilusão
que teve morte impaciente


Exalando presença lúdica
o ego criminosamente eregido
mostrou-se presença única


Ficou esquecido nos lençóis
o muito do pouco consumido
cantarolado em solfejos bemóis


A carcaça trajada de ansiedade
recolhe o silêncio desajeitado
e se mete de vez na obscuridade

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Nasci poeta?!

Não sei se nasci de um acidente
ou meu nascimento o foi, sem retórica
Não sei se a poesia me é inconsequente
se jorra sem luta ou se dela virei parabólica

Nasci congestionada, represada
de emoções e sentires acachapantes
Que se não envaziar-me até o nada
sufocam-me os moinhos de Cervantes

Oh Deus me esfolastes a alma vil
assim que a luz me acendeu a vida,
fiquei contida como pólvora, num barril

Guardo palavras nas mãos calejadas
dores e alegrias que na alma sangram
vertendo pelos dedos rimas marteladas.

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Confesso!

Custa-me confessar o corpo em desalinho
esparramado sobre o leito quente,
o ventre abrasado e sem carinho
sabendo-lhe insone e a carne dormente.



Sussurrar seu nome não me atrevo
ainda que o tenha apertado entre os dentes;
é loucura eu sei, e não posso, não devo,
padeço então como fazem os dementes.



Posso ouvir a chamar-me seus gemidos
convidando-me o corpo ensandecido
à revirar-me no leito aos gritos
numa noite inteira de amor pervertido.



Confesso sem pudor: o desejo me queima
o corpo pede e insiste; a cabeça diz não e teima.

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Poesia incidental

Esse silêncio suspeito
que invade minha porta,
vindo da sua rua,
tem cheiro de mentira,
ares de segredo...

Essa verdade de entrelinhas
dita entre dentes,
ao pé do ouvido de outrem;
parece zombar do caos
instalado durante o silêncio...

Continuo pincelando palavras
pendurando-as no varal;
hei de secar suas emoções...

e quando encontrar de novo
o som das palavras que calou;
teremos canteiros de poemas
enchendo de vida e sorrisos
as calçadas que estão
indo e vindo entre nós...

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Só para os teus olhos

















Senta-te do meu lado e olha-me de frente
Deixa o corpo manso e a alma leve
Não resista, deixa que eu te penetre pelos olhos
Há muito que preciso te dizer
Há muito que precisamos ainda dividir
Por esse tempo insuficiente
Que nos faz um ao outro tão breve
Tão longe e tão perto dos olhos
E toda ansiedade a nos envolver

Dá-me a chance de dizer de uma vez
Que na tua presença, aprendi a sorrir
Que te espero sempre, mesmo sabendo que não virás
Que conheço de cor a tua tez,
Dos teus lábios a maciez
Que sinto o teu cheiro na minha pele quando amanhece
Que sei dos teus pensamentos discretos
Do teu vagar sem direção
Deixa-me dizer que sei do que te aborrece
Que já conheço as batidas desse coração

Senta-te aqui e me abraça
Esqueça tudo por um momento
Quero sentir a paz da tua presença
O calor do teu corpo viril
Porque esse desejo não passa
Beija-me com envolvimento, com atrevimento
Faz-me única por alguns instantes
Apascenta minh'alma ansiosa
Minha sede amorosa
Sem depois e nem antes
Seja meu de corpo e alma
Por esse desejo que não se acalma
Trago na boca o teu nome guardado
Doce mel das noites de solidão
Que te aperto nos meus lábios
E mordo em confissão
Quando percorre meu corpo banhado
Os mesmos dedos que te desenham na boca
Contornam os bicos, depois de lambidos
Eis que te tenho a mim reservado
Pecado que cometo com teu aval

Olha-me somente sem dizer
Porque sei dessa trégua arisca
Desse fogo que insiste em arder
Enquanto a realidade não belisca
Beija-me com a mesma quentura
Que tem esse corpo sem censura
...Minh'alma tens bailando no teu universo
Rascunhada em cada linha em cada verso

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Desejo-te


Foto tirada pela minha filha Ju na Pinacoteca de São Paulo em 2009
















Desejo-te como o ar que respiro
no anseio de viver cada segundo,
como esse arrepio que me sobe
gelado, e se espalha na pele excitada.


Desejo-te como o conforto do abraço
que enlaça e aquece o corpo trêmulo,
como uma noite estrelada que se derrama
na cama solitária a sondar segredos.


Desejo-te agora a cobrir-me de beijos,
que só cabem na magia da tua boca,
beijos que sufocam e reanimam,
que lambem o gosto do amor e saciam.


Ah! Como eu desejo-te irreverente
sem compostura, valente...indescente;
rasgando as regras, afrontando a censura
para unicamente viver essa loucura.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Tenho Medo

Tenho medo de não ter medo,
E avançar o mundo das misérias,
Me perder na fila da fome,
E sem medo de desvendar segredos;
Ser condenada ao degredo,
Exilada na palavra,
Caminhar sobre brasas acesas,
Ser depósito de esperanças cegas;
A nadar de peito aberto, sem nunca espraiar


Tenho medo de ter medo,
E não denunciar a violência que campeia,
Pactuar com a demência que me rodeia,
Ser um verbo mudo;
Um folhetim barato, anônimo,
Sem nome e sem pseudônimo;
Me ver confundida na multidão calada;
Genuflexa e mãos atadas
Olhando para o nada.


Tenho medo da omissão,
De não ser ponto de referência,
De perder a paciência,
De me ausentar da obrigação;
Fazer pouco caso da minha razão
Me alienar da verdade,
E prostrada na ansiedade
Perder minha identidade

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

à força


sem meias palavras
sem rodeios
braços me agarram
não luto
sinto muitos joules
apertando meu corpo

sua boca me cala
uma língua abusada
me invade
e experimenta meu sabor

perco a razão
debato-me

inalo seu cheiro selvagem

finalmente
me deixo ser tragada

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

morte emocional


hoje a insensibilidade me tomou
olhei fotos e torci o nariz,
poesias e em nada vi essência
nem Duke Ellingnton me animou,
perdi o chão e por um triz
não perdi a minha referência.


Nem a tristeza que me abateu
instigou minha veia marginal,
joguei o corpo sem vontade
na mesmisse sem cerimônia
tecendo pensamentos néscios.


deve ser uma pré-morte
esse estado de entorpecimento
onde a vida escapa pelas horas
sem querer ser vivida...
um vazio sem cura
querendo preencher cada segundo.

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Eu precisava...

Eu precisava ouvir seus olhos perguntadores,
Sentir suas mãos impacientes;
Para saber se minha vida habita seu coração.
Eu queria poder voar para longe do ninho,
Beber as noites que sei existem dentro de você;
Quiçá eu sentisse sua vida pulsando aflita
Por não me saber acomodada entre seus braços.
Eu precisava ouvir as canções que sabemos
Dedilhar mesmo distraídos, porque falam de nós.
Sentir o perfume das madrugadas insones
Que rolam no seu leito povoado de sonhos.
Eu precisava ouvir seus pensamentos reveladores,
Inconfessáveis tanto quanto os que me assaltam.
Eu precisava e como precisava abrir um baú
De poemas feitos para vestir de corpo e alma
Meus desejos e sonhos que se consomem solitários.
Eu preciso e como eu preciso respirar o mesmo ar
Que lhe rodeia, sentir a vida que deixei na sua boca.

sexta-feira, 31 de julho de 2009

Urgência amórfica


Morre em cada frase mal construída
A heterogenia poética da verve solitária,
Que dela se veste como única saída
A morrer de uma possessão imaginária.

Nos espasmos suspiram versos tortos
Onde balbuciam sem estética, sem gramática
Eternizados nas linhas de poemas amorfos,
As palavras de urgência assintomática.

Coisa pouca esparramada no grande vazio,
Adornos usuais desfilando sem memória,
Temores e grandes amores marcados a frio.

Emoções sedentas por uma linha divisória,
Que vire a página sem pedir resgate
Registradas qual óbito na minha história.

sexta-feira, 24 de julho de 2009

Inconfessáveis olhares







Tantos desejos nesses olhares.
Tão inconfessáveis juras
ditas no silêncio que nos envolve.
Você e eu, tão estranhos
e tão indisponíveis um para o outro
e ainda somos amantes ardorosos
nos nossos momentos únicos.


Derrapo nas palavras
você se perde nos verbos
quando o silêncio maculamos
com falas que nada preenchem.


Voltamos aos olhares íntimos,
profundos no aconchego inaudível
que conservamos em cumplicidade.
Você me convida e eu aceito
o banho de olhares como longos beijos.

quinta-feira, 23 de julho de 2009

Improviso


Renasci da semente morta
Com riso pálido e muito viço
Nasci de uma teimosia torta
Me deram então um choro postiço
Um frio relaxante escorrendo lento
Eu que arranhei o ventre liso
Embrulhado em cores sépias
Eu, vício de amor barulhento
Fiz da vida meu improviso!

terça-feira, 21 de julho de 2009

Quadro de Avisos


No quadro, um aviso poético
Grafado com letras manuscritas
Quadras exatas em tons melódicos
Dão colorido especial em meio aos itálicos recados.
Uma tarja preta diagonal explica;
Jaz nas linhas desse poema eclético
Intenções lúdicas, impressões escritas.

Enfeita o quadro de avisos lógicos
Um poema prosa de sentidos variados,
Nascido de um sonho anárquico,
Quase que uma liturgia complexa
Emblemada de forma convexa.
Radiante lá está o feito simbólico,
Sussurrado em tom melancólico
Palavras catadas ao vento
Atadas em algum breve momento,
Recolhidas por olhares atentos;
Dormirão em um coração discreto.

Passará como tudo passou um dia
O verso, o poema e a prosa analítica;
Atrás da tarja preta, uma saudade.
Desfilará uma ou outra alegria
Uma ou outra reflexão cítrica;
Só nunca passará de verdade
A veia e a extrema força rasgada
Na emoção da palavra ali grafada.

segunda-feira, 13 de julho de 2009

Ciranda de estrelas


Tudo que tu vês, são meus olhos densos
Minha boca pálida, sem teus beijos.
E tudo que eu sei é que essa louca ansiedade
Deixa meus olhos alagados, pensos.
Não há céu além dos teus desejos
Nem há distâncias entre a tua e minha saudade.

Quando a noite cair, vou buscar,
Aquela ciranda de estrelas que baila sorrindo;
Para espalhar na tua cama perfumada.
Me verás ao redor da lua colorida, no teu hangar
Saberás que; em cada dia desse tempo infindo
Presente estarei por toda a madrugada.

domingo, 5 de julho de 2009

Luto


São resíduos geográficos
Desprovidos de certeza,
E espalhados nos murais
Esses recados gritados.
Sufocaria cada um deles,
Pintaria de luto fechado
Para que ninguém visse
Tanta insanidade deflorada,
Em palavras gesticuladas
Sem nenhuma convicção.

É só um ritual apoteótico
De um desconforto anatômico
Que não passará de aventura,
Ou mais um ato tragicômico
Dessa atrapalhada ironia.
No salto surgirá uma nova mulher
Referendada como rainha
Fiel guardiã da loucura.
Insana o suficiente para reagir
E sair do palco ereta
Nem que seja em cacos
Engolir as próprias mazelas
Para em silêncio lamber suas feridas.

sábado, 4 de julho de 2009

Página virada

A mesa tem dois lugares
cada taça tem seu prazer
não há brinde nem porre
um soluço gelado pelo vinho
entala numa lágrima quente


chove estrelas na janela


Dois silêncios se confundem
entre sorrisos desconsertantes
olhares docemente tristes
nas mãos confusas se buscam


chove olhares estrelados


A noite fecha-se em copas
não há espaço para palavras
a dança dos gestos tem pressa
de fazer sua própria história


chove estrelas nos olhos

quinta-feira, 2 de julho de 2009

autofagia












o que me deste senão
o perceber de um corpo
que se arrasta em dores,
um gênio abominável,
mãos vazias e pés trôpegos?


deste-me também uma distância
monótona e incômoda
que ora se traduz em amor exponencial
ora em uma enorme culpa vivencial
o que me prostra a vagar
sem achar o prumo da razão


e não me recolhes novamente
ao ventre de ilusões
para que eu me insurja diariamente
me contorcendo ante os horrores
dessa utopia chamada vida

quarta-feira, 1 de julho de 2009

Farsa


minha razão entende e aceita
explica, insiste
mas minha emoção chora
e fica magoada


a boca sufoca o choro
trava palavras
inaugura um fingimento


o coração cansado
não sabe mitigar
dores do muito viver


um sorriso plástico
desenha no rosto
o que dele se espera

terça-feira, 30 de junho de 2009

domingo, 28 de junho de 2009

sábado, 27 de junho de 2009

Ah se vai!




Vai me abraçar o corpo molhado,
Não do banho levemente perfumado;
De chuva regado com delicadeza.
Vai beijar minha boca com sutileza,
Não com o beijo rotineiro;
Mas num ritual de toques orquestrados,
Dos desejos mais aventureiros,
Vai passear em procissão;
Sobre as letras da minha canção
E pedir que eu esteja até o pescoço
Encharcada de tesão.
Só depois de me sentir até o osso,
Em doses homéricas;
É que vai adormecer no bamboleio,
Do vai e vem do meio seio.

terça-feira, 23 de junho de 2009

espasmos emocionais















concepção artística
Angélica
mãos atadas,
pensamentos livres
um clique duplo na palavra
e surgem picos, estatísticas
e ecos sem sentido.
morreu um pouco da intenção
no descarte de sentimentos
anunciados ou não.
vazio...
no peito bate um silêncio descompassado
recheado de angústia;
poética prosa
revira no estômago enauseado.
poema febril estremece o corpo
em espasmos emocionais...
vazio...
falta o ar, pressão no peito,
rimas entalam nas artérias
a vida se esvazia
no enfarte das palavras.

terça-feira, 9 de junho de 2009

Com a cara no mundo


Quando nasci fui recomendada solenemente, encarnaria em anjo o meu demônio, e caminharia em orlas ardentes. Seria de mim mesma paz e desassossego, e não me veria pronta nunca, mas pelas pontas rutilantes das minhas palavras arranharia e seria arranhada na alma e na carne.
Quando meu primeiro choro salgou a pele, tive a sensação de primeira chuva, e na primeira
chuva meu primeiro choro.
 Rasguei os estatutos e quebrei as normas, não me cabem regras se não me amoldo ao barro dos eretos e não vergo aos estilhaços da fala.
Fui consagrada na homília dominical e rompi o círculo das cabalas. Sou um corpo iniciado nas mandalas, circunscrevendo meu próprio espaço.
Me coloco na pira em que ardo incessante porque sou de mim, salvação em holocausto.
Não comungue na mesma patena, há de ter nela o meu sangue vertido em pecado. Consagra a sua oferenda a rebeldia dos insensatos e se aceita; terei em mim o seu pecado original, a Gênesis em essência.
Quando escancarei a cara no mundo profanei os tabernáculos e oráculos, botei o pé na profecia, e bem antes que me dessem as  chaves da existência eu já rompia com as exigências; pra me fazer carta e cartilha nesse jogos que se joga as avessas.
Se nos púlpitos da excelsa divindade eu me adorar, saiba que neles fui cuspida e cabalmente concebida.
Adentrei a vida pela margem oposta, segui sendas nem sempre muito sacras; sou quebra-cabeça e caleidoscópio, em constante mutação. Essa sou eu, mil vezes renascida, sutilmente escarrada na sua porta de entrada.

domingo, 7 de junho de 2009

Canto do desencanto



quem abraça os insensatos
nessa língua morta, explicitamente lógica?
os tapa buracos que ridiculamente caminham
qual Vênus em noite de pompa?
o morno diálogo dos refinados,
que tem pés de pavão e rabo enfeitado
sem a valia dos apaixonados?
é no barro amassado do peito que agoniza,
onde o farfalhar de asas ameaça
e o chão da estupidez seca lágrimas rotas,
que brotam estrelas radiantes
sem aplausos, sem honra de ourivesaria
iluminada sem candeias por luas pálidas
atravessadas de horas amargas.
não é preciso cortinas nem púlpito,
só um fiapo de ilusão, amarelada de esperança,
para ganhar encanto na boca sem riso,
canto sem juízo vestido de criança.
é só descompasso que não cabe no peito
calor e frio sem explicação,
água que queima no leito do rio
ou riacho que cabe na palma da mão.
não conhece o caminho da felicidade
quem nunca escreveu uma jura,
quem não rasgou o ventre de agonia
ou não experimentou uma doída saudade.
não sabe mesmo o que é ternura,
quem só arrota filosofia
sem ter calçado nos dias a simplicidade.
morre sem afago o canto gago
no açoite da cruel indiferença;
quatro cantos vazios na mesma sentença,
arte sem arreios que bóia na solidão do lago,
canto de sonho marginal, divina crença
porque nasce pura, cresce bruta
sem aparato mascarado,
beija a pele, balança ao vento, cavalga sem cela
desencanto açucarado
amadurecendo feito fruta,
com o olhar penso por uma janela...


sábado, 6 de junho de 2009

E quando...


E quando, as luzes se apagam;
Eu, estrela solitária, ainda sorrio alheia,
Tenho brisas que me afagam...
Te vais, com as folhas varridas,
Eu, fico com a vida, que em mim incendeia,
Nessas noites doloridas...
E quando, escondemos nossos cacos;
Eu, sangro pela vida que em mim se desnorteia,
Sepultando sonhos intactos...

sexta-feira, 5 de junho de 2009

Diário de fuga III


não há música no ar
nem marca de passos no jardim
só um leve perfume insiste
em penetrar por todo o ambiente.
 
minha voz responde ao eco de um riso
que inicia leve e enche o ar
cheio de interrogações
misturando-se ao aroma.
 
num minuto tudo se acaba
o silêncio volta seco novamente;
as lembranças quando acordadas
fogem com medo das dores de outrora.

Pensamento


A vida se sustenta nos ventos
que são levados ao sabor dos sonhos,
Se acordar sem mudar de lugar`
é porque já está no lugar certo.

quarta-feira, 3 de junho de 2009

Palavras molhadas


Eu chorei tantas palavras doloridas
que você não leu,
Chorei em tantos papéis
palavras, que por fim rasguei.
E chorei um choro sentido
em telas que com raiva apaguei.
 
Nunca você viu uma lágrima
nos meus olhos risonhos,
elas só molharam os papéis e telas
que você nunca leu...
 

Diário de Fuga II

Angélica T. Almstadter
03-06-09
 
 
Não sobraram gestos,
palavras
nem os silêncios
tão cortantes
e tão reveladores.
 
Quebrou-se a cumplicidade
que nunca encheu uma taça.
Foi ao vento espalhado
sem cerimônia 
todo carinho acumulado
durante anos.
 
Quando nossos olhares
órfãos se encontram
revelam pedidos secretos
de abraços
apertados, acalorados
como há muito não se permitem.
 

sábado, 30 de maio de 2009

num piscar de olhos

o encanto me permite esse momento
entre você, eu e o talvez
e assim perpetuar a magia
de nunca ter ponteiros
só a luz diáfana de olhares
e a eternidade das mudas palavras

sexta-feira, 22 de maio de 2009

diário de fuga
angélica t. almstadter
 
guardo no sorriso seu olhar
aquele que não deu a ninguém
calo meus olhares num único gesto
para não macular suas palavras
 
ninguém lerá na minha face
o que só eu soube traduzir
e ainda os posso reler com desdém
no espelho das minhas cruéis lembranças
 

sexta-feira, 17 de abril de 2009

slow motion
Angélica T. Almstadter
15.04.09

no ponto exato da pulsação
uma exclamação
e uma pergunta ficou no ar:
quanto vale esse tempo indeciso?
serei eu a pedra do altar
ou a pedra no caminho?

contida pela força
desacelero aos poucos;
não me acho, não me vejo
e não sinto o que me abraça
não há senão uma esperança
que bate descompensada
uma chama oscilante
que pisca e não se apaga
que não morre, nem se apruma

os dias se seguem obstinados
enquanto eu que não me habito,
assisto o tempo que me embaraça
nas horas que em mim se embaçam
na batida do carrilhão apressado

tenho pressa de viver
medo de adormecer e ver a vida se extinguir
nos meus braços vazios
sem ao menos ter vivido
a cota que me é devida,
conto os minutos dentro das horas
nas marcas da minha pele
nos fios do meu cabelo
que sem licença adoecem

desacelera coração
há muita vida dentro dessas artérias
muita horas dentro da ampulheta
infinitos trilhos nesse túnel
e muita emoção a ser embalada
por esses meus braços ansiosos

domingo, 5 de abril de 2009

Mutirão da solidão



Angélica T. Almstadter
01/04/09

uma multidão de olhares vazios
me acompanha todos os dias
são rostos sem risos
em corpos mecânicos
orbitando no vai vem diário

penso, logo existo
mas pra quem?
se os rostos que me seguem
não tem expressão,
as bocas mastigam nervosas
contra um implacável relógio

por todo lado gente, máquinas
vozerio, apitos, buzinas e mais gente
gente que não vive, não pensa
come, trabalha, anda e compra
e no tempo que lhe resta dorme
e esquece que é gente
e que por isso mesmo
acorda todo dia no mesmo dia.

A melodia dos seus pés





Angélica T. Almstadter
27-03-09

As sandálias se amoldam aos seus pés
que dançam delicados passos
No tornozelo despido
brilha uma jóia
tal qual um colo branco.

Lá vai ela pisando meus sonhos,
saltitando feliz pelas ruas
que enfeitada com pétalas de jasmins
serve de passarela dos seus caprichos.

Ela não conhece os espinhos
que tenho cravado na alma;
desafia sem embaraço
as leis da emoção
quando pisoteia no meu coração.

Dançam os balangandãs
com os pés dessa feiticeira
musicando rua adentro
seus passos mais ligeiros.

sábado, 28 de fevereiro de 2009







Maturando o corpo da palavra
Angélica T. Almstadter
28-02-2009

Há dias que mastigo o tempo
lavo-me nas águas do choro;
mais um dia sem poesia
engolindo vozes em conchas.

Flerto com alma do vizinho
gasto as palavras que calo
no pensamento enfileirado
...ainda sem colocar no papel.

Escorre o tempo junto a chuva
que cai no mesmo ralo;
apago as emoções,
e no vazio que me enche o espírito
deixo que dancem palavras;
quiçá um dia nasça
uma poesia com corpo e alma.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

da série Bom Dia

Angélica T. Almstadter

Algum dia em algum lugar meus olhos
hão de sorrir de verdade...
Não deixo rastros por onde ando, não deixo
marcas nas paredes recém caiadas...
porque sou transparente, não tenho pontas
a arranhar os espelhos que me refletem...
Sou apenas uma brisa de pouco perfume...
que roça breve e passa sem deixar saudade...
Tenho no ventre as dores do parto... constantes...
tenho nos braços a herança que não cresceu...
o sonho que não amadureceu...
Tenho o corpo crivado de angústias...
de esperanças adormecidas...
tenho a boca seca de saudades...
e os olhos perdidos em algum horizonte...
Sou um livro de páginas amareladas...
rabiscadas e arrancadas brutalmente...
sou o peso da liberdade e a lembrança da saudade...
Tenho o corpo vazio... o coração sempre apertado
e a boca sangrando através das minhas mãos...
tenho a alma na ponta dos dedos e dela
deixo um pouco toda vez que me faço canção...
Falta-me o ar... falta-me a vida... falta-me a razão principal
de ser e estar em qualquer lugar... falta-me o prazer de ser...
a alegria de viver... falta-me a vontade de prosseguir...
Tenho os pés doloridos... a alma lanhada... tenho as asas cortadas
e os olhos em mar... o que faz de mim um corpo estranho
em mente inquieta...
Faço-me lua para anoitecer... faço-me cânticos para sobreviver...
e nem os raios de sol que me rasgam o olhar...
e cintilam como lâminas podem apagar as lágrimas
que ora escorrem sem rumo...
Em algum lugar há de amanhecer
um dia que tenha sorrisos na janela...
abraços fartos para me envolver...
e mãos a me tocar sem receios...

domingo, 11 de janeiro de 2009

menino anjo

angélica t. almstadter

o anjo dorme sem asas
não é mais tão puro
um dia ele foi azul
foi doce e sereno

o anjo aprendeu mentir
chora mais que sorri
tem os pezinhos sujos
o olhar distante
suas pequenas mãozinhas
se esfregam aflitas
...conhece agora o medo
a tristeza de sentir-se humano

As pipas

Angélica T. Almstadter

Sonhos coloridos voam
cortando o azul do céu
livres como os pés sujos
e descalços que os conduzem

sorrisos povoam as bocas
olhinhos brilhantes assistem
a dança das rabiolas
formando desenhos imaginários
contando histórias únicas
nascidas da beleza de ser
comandante de um pássaro

abaixo da imensidão
os sonhos sufocam
a alegria dos pezinhos
que correm pisando
pedriscos pela vida afora

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

Alter ego

Angélica T. Almstadter


no espelho dessa mágoa
sorri um retrato em preto e branco,
há flores levemente perfumadas
pintadas nas mãos brancas do lado de cá.

foi o vento quem soprou novas palavras,
que não ousaram quebrar o cristal
para encontrar meus dedos afoitos;
escorreram molhadas pelo veio
a desaguar no rio do esquecimento.

está lá, olhando -me sem expressão
o mesmo olhar duro
que ora sorri, ora dorme
tentando enxergar além de mim
o eu sem história pra contar.

Trilhas

Angélica T. Almstadter

Atrás da retina; lembranças.
Nos lábios o gosto úmido do beijo,
Ilusão desvanecida
Bem guardada.

Preciosa jóia brilha
Só para meus olhos
Sem ontem,
Tão pouco amanhã.

Os passos vão lépidos
E a estrada encurtando;
Na mochila da memória
Cochilam sonhos
Tão meus e de mais ninguém.

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Só seixos rolam

Angélica T. Almstadter
16-12-08

São muitas as arestas cruas
cantos vivos a ferirem os olhos
nada que o tempo reconstrua.

Nós quebrados não se encontram
não formam laços. São peças soltas
sem significado, e que encruam.

Pedras brutas agarradas ao limbo
seixos não nasceram pra ser
afastam de si, mas não deixam o ninho.

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Belas novas e velhas rugas
Angélica T. Almstadter

Essa ruga leve que marca meu olhar,
contam das noites e dias
onde fui procurar o que nem sabia existir.
As mais profundas se fixaram aí
quando encontrei e me deixei absorver
por aquilo que conheci em detalhes.
Mesmo quando os olhos já não brilham
com a mesma intensidade,
a expressão se modifica a cada dia
e as rugas ao redor dos olhos se avolumam
meu espírito está em paz, já que a cada dia
somo um tantinho mais nessa
experiência fantástica que é a vida.