Meu diário de bordo

domingo, 3 de abril de 2011

Fácil, Táctil e Fútil

Redesenhado por um desejo fácil
Entrou pelos poros descobertos,
Pretendia aquela vida frágil
De muitos sonhos encobertos

 
Amor cáustico de lavras fúteis.
Entre meus olhos tristes flertou
Provocou tantas emoções inúteis
E sem adeus, o mundo ganhou.

 
Maria-sem-vergonha sempre trazia
Nas mãos vazias de paixão,
Transpirava uma vida fria.

 
Tão logo me compreendeu;
Bocejou angústias pífias
Virou a página e se escafedeu.

quinta-feira, 31 de março de 2011

Olhos

Foto : Olhar - Douglas Nascimento

Há olhos cravados
nas paredes
na rua,
no chão.

Não há olhos
de ler,
de chorar
a cura, a alma pura.

Olhos rodeiam
a imensidão
sem nada ver.

Nas órbitas tristes
de um branco sem fim
moram os olhos
de uma vida.

A vida inteira
se percorre
pelos olhos;
e o olhos vida afora
percorrem a vida.

Morre-se
sem dos olhos
entender a razão.

Sem deles
ter impresso a paixão
a tristeza dos dias,
o sorriso
ou a dor.

domingo, 20 de março de 2011

estrela artificial


uma estrela solitária
que brilha e brilha
longe dos olhos da razão

 
outrora meiga e solidária
de luz, acercada ilha
alegrava meu coração
 

outras galáxias hoje habita
visitando belos cometas
na realeza do universo

 
na solidão das crises se agita
na ilusão dos betas
na teoria do reverso
 

entre fótons e cósmica poeira
se afasta da mãe Gaia
prepotente estrela primeira
 

seu brilho audaz se esgueira
na ressonância primária
impressa na antiga soleira

sexta-feira, 18 de março de 2011

Engasgado


Angélica T. Almstadter

Um sonho engasgado, dormiu no meu peito
Tantas pontas tinha o danado;
Que me fez em tiras, o peito dilacerado.
Dentro desse sonho perfeito,
Guardei desejos desesperados;
A fala rouca, a fina flor exposta
Em camadas mutiladas de saudade.
Doeu tanto que cresceu arranhado,
Apertado e sem proposta.
Quando me acenava de felicidade,
Na poça de sangue derramado;
Brindei com um aceno breve,
Cerzi os rasgos com coragem
E bem antes que recobre a razão,
Me espalho em pedaços na brisa leve;
Meu prenúncio de estiagem,
Recheado com acessos de solidão.

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Acolhida

Calo-te com o calor da minha boca
Com o abraço solitário da minha ternura;
Nunca houve tanta verdade
Em tão pouco silêncio.
Um vale de sentimentos que transborda
Uma ponte que não encontra o outro lado
E um imenso borbulhar de sons
Dentro desse vazio de pessoas e gestos.

Eu desenfreada angústia, 
Sem diques, a correr nos corredores da vida
Engulo séculos de esperas, de retorcidos nãos.
Calo-me enquanto curvo-me aos açoites 
Mas  abro-me inteira de esperanças doces
Para acolher teu sorriso manchado. 
Eu ofereço meu ventre cansado
Para receber teus dias tristes
Que cabem em igual leito de solidão.

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Espaços

 
Grande esse vazio que cresce
espande por todo o espaço.
Enormes esses nadas que se amontoam
amoldando formas vazias e sem cor.

 
Dentro desse infinito espaço
que a nenhuma lógica obedece;
verdadeiros, só os sons que ecoam
mutilados por vozes em dor.

 
Deslocando-se de lá pra cá,
de cá pra lá, à deriva,
trombam com silêncios ácidos,
falas ocas e criações pífias
fingindo possuir gentil sabor.
 

Tantos compartimentos azuis
rosas e furta-cores, já emboloram
sob o cansaço da luz tênue que se apaga.
 

Foram recolhidos os sóis,
as luas e seus mistérios surdos,
não mais razão para colecionar:
ilusóes, sentimentos, nem chuvas doces;
atrás do pano  a vida envelheceu
de tanto esperar...

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

São Paulo - uma cidade encantada

Desvairada quatrocentona
que se ergue majestosa
nas construções seculares
bem como se encharca
pelos túneis e avenidas;
assombrando pela beleza
e ao mesmo tempo
pela fúria da natureza.

Aconchegante metrópole
velha e ainda deslumbrante
que tem um povo trabalhador
hospitaleiro e baladeiro.
Cativa seu turista e visitante
em cada beco de cultura
em cada palmo do seu chão
coalhado de atrações.
Amedronta seus passantes
pela imensidão de concreto
que se estende a céu aberto
e ao longo de intermináveis avenidas.

Bela quase qüinqüentona
que mesmo maltratada
segue imponente
até depois de um verão de dilúvios;
basta que o sol se apresente luminoso
e seu povo  se esquece das avarias,
das perdas e das suas dores mais fundas
para se apresentarem sóbrias,
bem vestidas indo e vindo pelas ruas e trilhos.

Não há chão mais sagrado
que o que nascemos ou vivemos.
Sofremos, choramos,
mas fincado a eles como raízes
florimos todos os dias
para que o mundo veja
a beleza que ofertamos
a quem nos visita e soma forças.

Cidade cinza de coloridos tantos
Enfeita-se de luzes e sons
para agigantar prazeres
dos seus transeuntes.
Proteje seus artistas,
abre os braços para o mundo.
Sua a camisa, estufa redes,
cria e exporta moda.
Generosa metrópole que não dorme
fala muitas línguas,
dança com todas as tribos,
e se acaba no Sambródomo
em plena quarta-feira de cinzas.

Bem-amada selva multi-racial
dos senões e dos desejos tolos;
um brinde a sua elegância
pouco entendida pelos recém chegados.
Um brinde a sua alma doce e tenaz
ao seu abraço carinhoso.
Muitos versos ainda faria e nem assim
cantaria sua atuante beleza;
fecho os olhos e emano energias,
num desejo sincero de Felicidades tantas
a você e sua brava gente.

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Egoísta eu?


Eu dependo de mim
porque sou de mim
pai, mãe e inteira
descendência de Eva.
Sou de mim o alvo
começo e o fim
apoteose da vida.

 
Tenho em mim
a semente benfazeja
a energia vital,
o dom sobrenatural,
o sangue da realeza.

 
Eu me contenho
e me basto
em um único cálice.
Sou anjo doce,
criação original
esculpida no ápice.

 
Onde estiver serei
primeira e única,
de mim e para mim
exalando a essência
da melhor existência.

 
Meu diário: a franqueza
sem motivos,
sem objetivos
para o augúrio
de alguma beleza.

 
Cultivo o desprezo
por ser herdeira hilária
do cenário patético
do meu imaginário. 

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Ególatra


Angélica T. Almstadter
09-01-2010
 

Olha o seu umbigo
não, não deixe que chova
os cartazes da cidade
espalham seus odores
 

Mais um dia de sol
para sua glória
a vida respira de mansinho
prostrada aos seus pés
você é a mais nova eleita
 

Seu perfume inala
todo vapor destilado
das gentes
nada é mais forte
que a sua presença
 

Apesar dos sinais
sua retina não retém
as novas informações
seus olhos passeiam vazios
pela órbita da vida
 
 

domingo, 9 de janeiro de 2011

Psiu

Estou sentindo falta de silêncio,
falta do frio eco zunindo ao meu redor
que atropela meus pensamentos
e faz com que eu grite em versos.
Cansei do vozerio, dos risos despachados,
do tropeçar em falas e cantorias.

 
Quero de volta o silêncio, a solidão
que me faz ouvir o tum tum tum do coração
que me obriga sentir a respiração.
Me envolve em suores frios de aflição.
O silêncio inquieto que faz perceber-me
ouvir-me, tocar-me
e saber que  guardado dentro de mim
represado querendo explodir
há poemas e prosas em gestação
maturados, querendo nascer;
lembrando que a vida só pulsa vigorosamente
porque aqui a poesia é fonte incessante
mesmo que não ecloda todos os dias.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

A Porta

 Angélica T. Almstadter

Antes que atravesse essa porta
Saiba que perdi o senso
Depois que estrangulei minha aorta
Não me cobre consenso
Cansei de tanto juízo
Desse  comportamento adequado
De esconder meu jeito exagerado
Meu pouco siso
Não se espante com essa outra
Que se encontra deste lado
Uma muher risonha e marota
Cheirando a pecado ousado
Cuidado com essa mulher
Que tem um jeito diferente
Que se comporta feito gente
Que sabe o que quer
Respira ares de liberdade
Quando ama é atrevida
E chora de saudade


Essa mulher não foi a que deixou
Nem a que conheceu
Essa é a mulher que amadureceu
Aos poucos desabrochou
Soltou suas amarras
Tem vontade própria
Afiadas garras
Apesar de sóbria
Aprendeu seus limites
Encontrou seu universo
Em cada linha de cada verso
E não aceita mais palpites.

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Turbilhão



Foto Jussara Almstadter
 
Sem direção e nenhum freio
eles entram e saem
silenciosos algumas vezes
ou rasgando emoções
arrebentando as comportas
que me banham soluçantes
 

Liberam alegrias
lembranças doces ou doídas
estimulando
inspirando
deprimindo
 

Vorazes como a fome
devoram as palavras
que regurgitam
incessantemente
... sobre o alvo papel
vai se livrando delas
uma a uma num ritual
emocionalmente caótico

domingo, 5 de dezembro de 2010

Nódoa


Angélica T. Almstadter
 

Cuspi a alma em fagulhas,
Sobre a toalha impecavelmente branca.
Com alma sangrei vinho do brinde.
Ficou incrustado no linho mesa,
Sob seu olhar atônito, a marca exata
Da minha mais nobre emoção.
Sei que acalentará com cuidado
Até juntar todos os cacos,
Do meu amor derramado.
 

Uma taça de esperança tinta,
Para bombear meu coração apagado.
Um silêncio precioso para recompor
O espelho da minh'alma estilhaçada.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Não desejo ser compreendida



Angélica T. Almstadter

Sou o sonho solitário que rompe os muros dessa prisão...
Sou o vento libertário que invade os ares em busca de comunhão...
Sou a branca nuvem desse teu céu em harmonia...
Sou a paz na tua melodia...
Sou o rio que  explode no leito inexplorado...
Sou o veio rasga a terra com sede de viver...
Sou a sede da natureza...
Sou a voz embrutecida...
O sal da terra
A voz que grita se agita, se contorce...
Sou o brado em meio ao deserto, a tempestade que sufoca, o banquete dos faraós; não sou pó, nem oásis nesse mar de sol abrasador.
Sou a linfa que circula nas entranhas da areia...
Sou espuma ruidosa que se desmancha na areia escaldada, sou minguante na maré das luas adolescentes, sou veleiro perdido na tirania das marolas...
Não sou a paz das espadas desembainhadas sou guerreira errante nessa  ampulheta de bandeiras hasteadas...
Não me pertenço, não sou rumo nessa esfera em que bailo...
Não sou brilho nessa nesga de luz que atravesso, sou a parte amputada da história que conta suas glórias, atravesso o buraco negro em vôos rasantes, me mantenho atemporal, sazonal a medida que me guardo no olho do furacão como chispa incandescente,
fagulha acesa que carece de lenha para arder...
Não desejo ser compreendida, borbulho pela borda da vida e como bebida preferida, me aceito e me derramo,
só quero ser sentida...

terça-feira, 23 de novembro de 2010

olhos de ressaca

mataram meu humor
na curva de uma palavra
o riso ficou pendurado
num canto sem graça da boca

 
minha voz foi encoberta
pelo som dos silêncios
entreolhados cúmplices

 
meus olhos pensos
soluçaram de dor
e não mais sairam
do porta-retratos da sala

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Iluminura

Encastelada em sonhos difusos,
cercada de silêncios e rumores,
mora a inqueitante solidão.
Tece os dias em pequenos fusos,
bordando horas inteiras de favores;
com fios de meadas tênues
intercalando sua doce ilusão
aos traços firmes da obsequiosa razão.
 

Lá onde o encanto não morre;
refaz as aflições com igual agonia,
bebe verbos e palavras ausentes.
Para si mimoseia com ternura
a boca escancarada do escárnio.
Moraria dentro de uma epifania
não fosse a realidade uma ruptura.
Mas é noite de passar os dentes
Fechar a cortina mudar o cenário.

sábado, 13 de novembro de 2010

Out


Chic é ousar ser
é não negar o tesão,
muitos nãos
elevam a auto estima.
 
Estar on as vezes
é muito vazio;
Estar out
é uma sacada
pra grandes vôos.
 
A solidão é off
a alegria está out;
um clic e se acende.
 
Mas chic mesmo
é saber ser out
curtir a solidão
gostar muito de ser
beber o vazio
e voar com alegria.

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

os mil tons e sons da solidão

acenando ao vento se afasta,
já fora do alcance dos sons,
sua obtusa lembrança gasta
na trilha matizes em mil tons


a rede rompeu laços tantos
é hora de navegar a solidão
espraiar em outros recantos,
com fúria, sua autêntica ilusão


sem traves, obstáculos ou afins
sobre os próprios passos
poder calçar solfejos de serafins


um brinde borbulha na taça
a palavra se sujeita a míngua
de qualquer língua em ameaça

terça-feira, 9 de novembro de 2010

O vôo da palavra


Não há vôos ensaiados
As asas conduzem ao desconhecido
Como se vez primeira fossem
Todos os rasantes

Não há falas ensaiadas, só
Pensadas e repensadas
Elas se espalham renitentes
As mais impensadas
Florescem sem preconceito
Até que cheirem mal

Entre um vôo e uma fala
Fico com a palavra
Descrita em muitas nuances
Porque dentro dela o vôo
Sempre recomeça a cada leitura.

sábado, 6 de novembro de 2010

Insight de Lucidez



O que importa se a porta se abriu?
Que diferença pode fazer eu andar alguns metros, ou alguns centímetros,
se cá dentro desse espaço os olhos estão cravados em mim?
Não por eu ser assunto importante, não,
mas os olhares me fitam perscrutantes de quem estuda,
controla...de quem mede cada passo e teme cada palavra.
Pois que se feche essa porta, e que o holofote não fique focado sobre mim,
penso que longe da alça de mira d'algum olhar malicioso,
o tempo há de ser mais senhor da razão, exatamente como nesse chavão.
Não vou perder o tempo com mesuras ou rotas desculpas,
tenho estrelas nos olhos, com pontas a me espetarem a íris impaciente,
tenho ombros largos o suficiente para aceitar tanto a mochila mal feita
quanto o braço pousado sem pressa, sem perguntas...
Não me assusta mais olhar e ver o que em outro tempo me apavoraria;
me incomoda não prever as palavras que soam como eco de peitos vazios
e barrigas cheias de reizinhos mal coroados.
Prefiro portas fechadas atrás de mim; é na curva do horizonte
no silêncio que sopra a excelência da natureza viva que eu encontro o abraço mais
apertado, a definição mais perfeita do amor.
É no aberto onde sem traições e sem traidores que a vida se torna real em toda sua magnitude.
Eu não espero que tantas pessoas compreendam a minha peculiaridade de viver a verdade inteira só por lealdade ao meu próprio espírito.
Minha alma, a parte carnal do meu espírito tem a sabedoria de entender e fazer ponte entre meus múltiplos corpos; o restante, já nem tem muita importância.