Meu diário de bordo

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Finesse


Foi-se o tempo pacato da candura,
a hora do recato e inocente compostura.
Ficou um talho aberto pela castração,
cerzido de retalho, atropelo e frustração.

Salve a meretriz que vai a luta;
essa infeliz que tem fama sem ser puta!
Riam sim dessa fulana, criatura hilária
de quem não se sabe a cama, mas a tem por otária.
Viva a doce prostituta que nesse teatro vil
só conhece a labuta, e o gesto servil.

Espuma na língua infame o fel da acusação,
vociferado desde o prenome, sem consternação.
Bravos! Morre a míngua e não sem suspiros
o sorriso com íngua, que viveu entre vampiros!

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Fogo Fátuo

Pela órbita revirada dos meus olhos,
Um rio de emoções desaguou silêncios
Que caídos formaram lagos tão doces
Quanto o ensaio amoroso que os revirou.
O som das palavras não passou na garganta
Lubrificada pela alegria de as sentir.

Quem se perdeu nas horas?
Fui eu ou foi você?
Quem engoliu a voz junto aos sonhos?
Eu?

Restou um caco colorido de brilho morto,
Piscando obscenamente
Sempre que a saudade bate à porta
Do meu atabalhoado coração.

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Infarto


Não invada a minha veia,
Pra cessar essa sangria,
Estou enfartando de palavras,
Com estrangulamento da carótida,
Da forma mais exótica;
Por excesso de poesia!
Sente e devagar, saboreie;
Esse jorro em homilia,
Da minha adoração profética.
Sinta o gozo do conteúdo,
Em silêncio respeitoso,
Da minha forma fálica,
De usar a fonética.
Pra falar um pouco de tudo,
Vou em cortejo amoroso,
Desfiar verbos e versos,
Embolados e travados na goela,
Os meus universos;
Em dimensão paralela.

domingo, 8 de agosto de 2010

perigo

jogo o corpo fútil nas horas tolas,
já não há compromissos;
olhares omissos talvez
e uma pequena platéia cortez.

despejo sorrisos,
saltito nas palavras com a ponta dos pés
não temo mais os absurdos,
nem vigio o peso
tenho desejos precisos
humor variante como as marés,
especialmente para o falsos surdos.

guardo o rosto crivado de ansiedade
vivamente indefeso...

o corpo jaz tombado...
sinais? só dos pecados aparentes.
a pele alva inunda o ar
de almíscar do banho cuidadoso.

estranhamente calados
os olhos parados, adormeceram risonhos,
mais uma página impressa
entre paredes, entre dentes
uma conta deposta no altar;
pudicamente despida
por primícias de promessas.

sábado, 7 de agosto de 2010

Se eu morrer amanhã

Se eu morrer amanhã, preparem uma festa;
Quero minha melhor roupa, música e flores.
Não quero tristeza, eu quero mesmo é seresta
Na madrugada. Que venham meus ex-amores.


Como despedida, quero poesias no ar pairando
Declamadas sem choro, embargadas de emoção.
Quero sentir cada verbete entoado vibrando;
Para aplacar a saudade que levo no coração.


Se eu morrer amanhã, de hemorragia ou agonia;
Me botem um sorriso no rosto com batom e carmim.
Digam a todos que vivi e morri sufocada de poesia.


Contem das tantas palavras que brotavam em mim
Dêem-me sonetos, crônicas e uma infinidade de prosas,
Dêem-me descanso nas muitas rosas que terei enfim.

domingo, 1 de agosto de 2010

Quadro de avisos

No quadro, um aviso poético
Grafado com letras manuscritas
Quadras exatas em tons melódicos
Dão colorido especial em meio aos itálicos recados.
Uma tarja preta diagonal explica;
Jaz nas linhas desse poema eclético
Intenções lúdicas, impressões escritas.

Enfeita o quadro de avisos lógicos
Um poema prosa de sentidos variados,
Nascido de um sonho anárquico,
Quase que uma liturgia complexa
Emblemada de forma convexa.
Radiante lá está o feito simbólico,
Sussurrado em tom melancólico
Palavras catadas ao vento
Atadas em algum breve momento,
Recolhidas por olhares atentos;
Dormirão em um coração discreto.

Passará como tudo passou um dia
O verso, o poema e a prosa analítica;
Atrás da tarja preta, uma saudade.
Desfilará uma ou outra alegria
Uma ou outra reflexão cítrica;
Só nunca passará de verdade
A veia e a extrema força rasgada
Na emoção da palavra ali grafada.

sábado, 31 de julho de 2010

provocação


num sussurro malicioso
me prende entre suas coxas,
revira meus cabelos,
despe minha nuca
quando acende arrepios na minha pele...

sabe que pelos flancos me domina,
se me apanha pela cintura
e rodopia pelo meu quadril
num manso beijo lambido...

me olha como quem fareja
morde os lábios,enfia os dedos
pelos meus cabelos,
quase posso lhe ouvir os pensamentos...

na espiral da fumaça silenciosa
seus desejos ociosos espreguiçam
...aceito seu recado...

sexta-feira, 23 de julho de 2010

basta

sinto o peso das palavras
a modulação dos sons
ouço o tilintar das vogais
elas entram-me sem dó
rasgando os silêncios
rompendo portas e janelas
ecoando pelas paredes
ensurdecendo meus ouvidos

calem-se!
quero de volta a mudez
das madrugadas insones
ouvir minha respiração arquejada
meus risos solitários
estatelados pelos espelhos e telas
quero as lágrimas caladas
borrando o rímel
sem lenço nem ombro

voltem para as bocas insossas
para as gargantas fúteis
ao celeiro dos seus desafetos
minha algesia não suporta
tanta sonoridade rebatendo
em zig zag entre minhas arestas

quarta-feira, 21 de julho de 2010

Em que língua falam os amantes?









Foto : Angélica - Pinacoteca de São Paulo


Qual o som que se ouve dos seus lábios?
Nao falam por palavras...
Amantes se entendem por gestos
e olhares profundos...
Em cada fio tênue desse emaranhado
que ligam suas emoções,
há um mundo de registros codificados...
Linhas mestras e um inequívoco
encontro de raios que embora paralelos
refletem explosões contínuas...
em todas as direções...
Nao é preciso muito para se entender
as várias nuances espelhadas
dos corações amantes...
e só sentir para lhes conhecer na íntegra;
são imãs que se atraem e se repelem,
metal da mesma têmpera, aço da mesma forja...
vinho da mesma safra...
Quem há de compreender suas poucas palavras,
seus sussurros...
quem há de lhes saber os sonhos,
os desejos e devaneios...
Ah... como parece fácil imaginar,
como parece claro cada uma de suas aspirações...
mas quem há de sondar-lhes a alma
para saber da profundidade...
quem há de perdoar-lhes a pouca censura,
o excesso de zelo...
Ah... quem sabe dos passeios
de suas almas pelo infinito,
onde não existem amarras,
onde nada começa e nada termina...
quem sabe dos seus cânticos
entoados em tons delicados,
da dança dos seus corpos sem pudor...
dos beijos que se eternizam na memória...
quem lhes compreende a loucura
de se pertencerem sem receios...
O templo dos amantes fervem em minúcias...
se perdem em carícias...
aprendem e aceitam suas limitações...
se abrem às renúncias...
Ah.. quem pode entender seus antagonismos...
seus aforismos...
quem assim ama de igual grandiosidade
...

quinta-feira, 15 de julho de 2010

abandono

Foto: Jussara Almstadter
Modelo: Ariane Galindo

auto retrato














teimosa como ninguém;
metade bicho, metade gente.
a vida em mim se contém
porque dela sou sobrevivente!


inquieta, fiel e barulhenta,
sou eu as vezes mulher fatal,
ansiosa, mais que briguenta,
impulsiva, real e muito leal.


sou criativa, sensata, articulada,
sensível. chorona e até chata.
sou previsível e bem desencanada,
também sou uma medrosa nata!


para os segredos: sou um túmulo,
no trabalho sou incansável;
exalo a energia que em mim acumulo
no trato do que é executável.


sou gentil, amorosa e felina;
amante carinhosa e companheira.
ser falante e falastrona é minha sina,
e da verdade eterna prisioneira!


mais erros que acertos somente
nesse meio século que me abraça
no meio fio dessa aventura vivente.
isso tudo é verdade ou chalaça?

domingo, 11 de julho de 2010

Gosto de sangue


Vermelho é meu avesso fogo
Enraizado de chamas ardentes;
Luxo fácil para entrar no jogo
Onde o que vale são as vertentes.

Mas o azougue se afunila na entrada
Espreme e entra pelas frestas,
Faz meu coração em disparada
Uivar e sair em busca de serestas.

Zombo e rio no fio afiado sem defesa
Com o fogo do meu vermelho sangue,
Nada pode doer mais do que a acesa

Solidão inocente que me fere e tange
Em coágulos de uma inútil certeza,
Para eu sinta o gosto do desejo exangue.

terça-feira, 6 de julho de 2010

sou, serei


não poupe meu tempo
nem afague meus erros
quero a plenitude
do começo ao fim
não me sei ainda
saberei um dia
não conheço os dias
como conheço as noites

tenho na ponta dos dedos
a urgência de falar
um medo escravado
no silêncio da alma
gosto de colorir os dias
para deitar os pensamentos
em noites perfeitas

não me procure na superficie
não sei boiar na leveza
das palavras
estou enraizada até a medula
não me basto com pouco
meu embornal
me parece sempre vazio

vou passar os dentes
no tempo que não me permito
lamber e mastigar
todas as letras que puder
serei de mim a melhor certeza
escrita sem rasuras
verdade sem vírgulas
começo, meio e fim

domingo, 4 de julho de 2010

Nos vemos no aeroporto!



Ela a rainha do tango cantada em verso e prosa, a toda poderosa e temida Argentina que tinha o melhor jagador do mundo Leonel Messi, tinha o goleador Igain que também é genro de Maradona, um ataque pra fazer qualquer adversário perder o sono e pecou. Saiu de cabeça baixa, chorando como fizeram outras grandes; Brasil, Itália e França.
Sua primadona contestada pela péssima campanha que classificou a Argentina no pêlo, andava de peito estufado fazendo de tudo para que os olhares e flashs não saíssem de cima de si. A arrogância em pessoa ousava alfinetar o Brasil esquecendo sempre que se estava na África foi por acidente de percurso, não que a seleção portenha não seja valorosa, mas a estrela máxima buscava sem cessar dar o espetáculo acima dos seus comandados.
Naquela bola que pegou de chaleira na lateral do campo sem sequer mexer um fio de cabelo ele mostrou que não perdeu a intimidade com a bola, mas isso era pouco para Dom Dieguito que queria o podium e se tivesse a oportunidade de tripudiar em cima do Brasil, seria sua glória, porque se já adorado na Argentina imagine ir a frente enquanto o Brasil tropeça; teria status de herói na Argentina, com direito a reverências públicas, tapete vermelho e quiçá a Casa Rosada.
O Brasil se foi na sexta-feira, caiu diante da laranja e a Diva portenha satisfeita celebrava na sua coletiva : Quantos holandeses por aqui? Eram os jornalistas e a mídia, mas ele não deixaria de alfinetar!
Fashion e todo estiloso como é próprio das primadonas Dom Diego chegou para uma estrevista coletiva usando um óculos todo cravejado swarovsky, presente de uma filha.
Entrou em campo o drean time da Argentina orquestrada pela maior diva dessa copa, sob os holofotes do mundo todo, e fez fiasco, tomou um chocolate delicioso ( para nós brasileiros) da Alemanha que passeou em campo e nem deu chance de marcarem o golzinho de honra.
Nós vemos no aeroporto Dom Dieguito! Falar mal do Brasil só quando vocês tiverem mais copas que nós, ok? Por ora ainda somos os únicos pentacampeões e o Pelé é o atleta do século, o maior de toda a história do futebol, morra de inveja!
De quebra o mundo fica livre de ver você nu de frente para o obelisco.

sábado, 12 de junho de 2010

Catarse










Será que deveria revelar meu disfarce,
Expor de cara lavada meus dotes tímidos?
Talvez assustasse meu medo e a catarse
Que escondo atrás desses gestos insípidos.


Delicadeza de palavras morrem à míngua,
Onde a presença nem sempre se nota.
Sobra hipocrisia quando falta papas à língua;
Circo e platéia para o bobo da moda.


Não vale um tostão a vaidade da verdade,
Só há mesmo escombros na realidade,
Que vale tão menos que a sinceridade...


Pois que morra como nasceu o segredo;
Forte e imbatível como um rochedo,
Hoje não faz mais sentido tanto medo.

terça-feira, 8 de junho de 2010










Foto Angélica

Pacto com as estrelas
Angélica T. Almstadter


a cidade calou-se por instantes
e entre um passo e um olhar
se fez mulher por inteiro
- queria brilhar para a lente
foram beijos estalados
cliques tão proibidos
no escuro sussurrados

nasceram douradas silhuetas
flash espolcados
silenciosamente cuidados
que escorreu pelos nossos cabelos
a prata da noite que mais ninguém viu
...ficou eternizada na retina
como tatuagem cintilante
a noite dos desejos inconcebidos

sábado, 22 de maio de 2010

Meu medo e eu

O medo crítico cresce atrás do sorriso largo, parece não entender o significado da frouxidão nos lábios. Não se mostra como os dentes que brilham risonhos em alto e bom som, compostos com a gargalhada sonora.
Lá no fundo embutido entre disfarces e alegrias extemporâneas ele se esgueira pela razão tentando se justificar, mas qual...
Muitos ontens foram se somando e ali encravado no peito sem respostas misturando-se aos anseios o meu pobre medo perdeu o receio de ser ele mesmo e de se ver de frente. Reconheceu seus próprios atributos e ficou matreiro a se esconder pelo riso escrachado.
Hoje maduro e enraizado ele só faz encorpar, escondido atrás dos olhos que nem sempre o delatam e da boca mentirosa que nunca o confessa. Fiz de tudo para atirá-lo pela janela do trem, de alto de um prédio e ao contrário do que podia; ele foi mais forte, me aterrou ao chão presa nas suas invisíveis teias.
Ninguém sabe o terror de tê-lo envolto nas cobertas noite adentro, nas horas de silêncio infindo contando os passos dos ponteiros. Olho para o alto e ele me afugenta, dentro das cápsulas ele me tenta e eu confisco iguarias para entretê-lo.
Nos respeitamos, eu acho; ele não me entrega e eu o aceito como companheiro. Dessa união esquisita o que resulta é uma pessoa comedida que não se arrisca a correr riscos e um medo tolo que de tão arrogante; fia os passos da sua coadjuvante.

segunda-feira, 10 de maio de 2010

secura


quantas foram as portas
que se fecharam para mim
e quantas abri na marra
quantos foram os risos que engoli
e quantas gargalhadas espalhei
perdi a conta de quanto reboco comi
escalando paredes que não venci
e o mar de palavras que verti
para não afogar sentimentos
nem entalar na garganta arranhada

agora olho ao meu redor
vejo uma mansidão
um silêncio de mim
um estio de sentimentos
uma secura de solidão
que mal me reconheço

quarta-feira, 5 de maio de 2010

Cepticismo


Tão perto dos teus olhos
E tão longe do teu querer,
Como no dia em que vi a luz primeira
Nos cantos e louvores entoados com alegria.

Meus pés sangraram tantas vezes,
A garganta secou de tantas palavras
Tanto quanto pela sede delas.
Nunca me viste realmente!

Meu coração nunca se aquietou
O desejo de sabê-lo me queimava,
A certeza de senti-lo dava-me esperanças;
Só ao redor de mim te manifestavas.

Marquei hora, dia e não chegaste.
Esperei pelo teu tempo que não chegou.
Gastei o chão indo a tua procura,
Estavas para além de mim, nunca para mim.

Fechei os olhos, o coração e a porta.
Não virás, hoje eu sei.
Meu coração embruteceu de esperar
Por um amor que nunca me abraçou.