Meu diário de bordo

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Diário II


Diário II

Guarda minhas palavras, o meu diário...
como lembrança do meu sentir...do meu existir no teu meio...
Guarda cada uma das minhas emoções...cada uma das minhas lágrimas... emoldura cada um dos meus risos...seleciona cada momento que me dei em abraços...e conversas frouxas...
Lembra-te das minhas broncas...das minhas pequenas gentilezas...das minhas ausências...do meu jeito intempestivo de adentrar tuas falas...
Não te esqueças dos meus silêncios sofridos...das minhas reflexões murmurantes...
Pensa que várias vezes falei da minha crença...
da minha fé...tantas vezes me derramei em confissões...em juras...
Nunca te incomodes com o meu desconforto pelas
acusações...pelas insinuações..ou até pelos 
pensamentos mal compreendidos...acho que criei algumas resistências...
Não te esqueças da amizade que dediquei a cada
um dos meus amigos...do abraço apertado...do
beijo estalado que à cada um enviei com carinho...
Tenha a certeza das muitas conversas ao pé do ouvido...das muitas alegrias e das outras tantas tristezas que compartilhei com cada um com quem estive...
Saiba que comigo morrem os segredos a mim confiados...tenha certeza da minha lealdade...da minha fidelidade...da minha eterna cumplicidade...
Sei que sabes tanto de mim...que desse livro aberto que sou...pouco faltou para dizer...
dessas minhas conversas transparentes...dessa minha urgência de ser...fiquei como um marco...
feliz ou infelizmente deixei rastros...deixei pegadas
que vão levar tempo para serem apagadas...
Ainda assim te peço...guarda as minhas palavras...
as que dediquei só a ti...as que nunca dividi...
guarda as minhas lembranças...meus
soluços de criança...porque ninguém me verá
como me vistes...ninguém jamais terá
o que é só teu...
Não te peço que lembre da mulher...e sim da poeta de alma livre de preconceitos...cheia de defeitos...de erros e transgressões...
Lembra dessa poeta que não sabe falar de guerras...
de ódios...de bichos...de acasos...que só aprendeu
a falar do amor que lhe corre pelas veias...

sábado, 1 de dezembro de 2012

Valsa



Pés alados fora do compasso
Na dança das horas mortas
Se verga no atraso do meu passo
Passeia nas linhas tortas

Rodopio na valsa com graça
Tropeço, engasgo no seu abraço
Você ri, não importa o que eu faça
E eu valso pelo seu braço

Pés alados para o infinito
No aconchego dessa dança
Seu amor tão aflito
Me envolve e descansa

domingo, 25 de novembro de 2012

Alucinação




Respiro a solidão que escorre pelas paredes deste quarto 
Habita essa cama enorme e fria 
Em noites de pesado sereno 
Meus olhos baços se debruçam no candeeiro 
De chamas chorosas 
E pinga em gotas quentes a lágrima silenciosa 
Murmurada entre os inconfessos soluços 
Como pequenas labaredas 
Meu olhar desalinhado se perde 
Nas esquinas desta espera 
Meus lábios ressonam 
A poesia cultivada na alma 
Jorrando como rios que correm para o mar 
Bravios, caudalosos apressados... 
No balé do meu olhar sereno 
Mora teu rosto murmurante 
Infinitamente distante.... 
Não te encontro nas dobras dessas lembranças 
Nas encostas deste abismo em que me esgueiro 
Me recolho aos átrios internos 
Cerrado pela censura vital 
Que me espreita caprichosa 
E busca o meu abraço solitário...

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Aparas




Em que parte de mim me uso?
Onde acho as pontas do fio desse casulo?
Sei onde aparo minhas arestas,
Como sei onde encontras minhas frestas.
Escolhi as bordas do inferno
Para delas observar o infinito que me cobre;
Assim, nem toda escuridão é eterna.
Onde e quando me anulo
Nas tramas trocadas desse abuso?

Toma meus jardins, adentra meus átrios,
Que me permito, em soltos fragmentos;
Comer a poeira desse redemoinho
Para permitir a paz do polimento.
Habito as entranhas de um vulcão,
Tenho gumes afiados e olhos de águia,
Deixo a superfície para os enfeites,
Para os breves aceites,
E envolvo em cadeados as portas da baia.

É nas profundezas, onde os elos se fundem,
Que os rasgos são mais doloridos e se confundem,
Que se formam os maremotos;
Onde não alcançam os olhos da carne,
Onde se purificam as origens,
No abalo das estruturas,
Permitindo grandes rupturas
No vigor de se saber varrer a alma,
Aí é que se instalam as transformações.
Não pelo prazer único de ser o que se come,
O que se veste, o que se tem;
O ser pelo existir somente não preenche.
A pluralidade de se ser único;
Está na particularidade de saber ser
Inteiro, constante e livre;
Sabido e querido, sem porém.

segunda-feira, 30 de julho de 2012

aparências



dei-te asas e o infinito
mas te rastejas agarrado à miudezas.
da minha febre, inventei a vacina;
tu rapidamente, a chacina.
sobe pela minha face o rubor
injeta-me os olhos de melancolia.

coleciono pilhas de indiretas
chiadeiras em furor;
mas me guardo sem restrições
nesse jogo que assusta
entre portas e passagens secretas
de aparentes petições
de desejos sem pudor
nessa sede que frustra e susta
todas e quaisquer aferições.

sexta-feira, 20 de julho de 2012

Reciclando sempre


 Latinhas de Neston recicladas para outros usos

Transformei essa pet em suporte de papel higiênico para uso fora do toillete

segunda-feira, 16 de julho de 2012

O tempo em mim





Tenho olheiras das preocupações, das noites mal dormidas, rugas de tristezas, flacidez das ansiedades.
Coleciono fios embranquecidos que marcam  as lutas que venci e as que não consegui ainda.
Os passos cadenciaram não pelo cansaço; pela falta de pressa, pelo gosto de aproveitar cada minuto como se fosse o último.
Meu olhar perdeu o brilho da novidade e ganhou contornos de sobriedade, da sabedoria, da aceitação de ser.
A boca não grita com o entusiasmo de antes, mas sabe a hora certa de falar e calar; porque o coração  em equilíbrio não a exulta a descompassos exagerados, basta o murmurar com delicadeza para ser compreendida ou o silêncio revelador.
Tenho a idade exata de estar onde estou, de ser quem eu sou, de aprender de novo e sempre.
Tenho nas mãos o perfume de uma vida inteira para tocar nas palavras.
Posso gastar o tempo, que me resta, apreciando a vida pela janela, lambendo velhas feridas ou posso renascer a cada dia e reaprender a pessoa que quero ser.
Definitivo mesmo só a morte.

sexta-feira, 13 de julho de 2012

Dilema




Fora da corrente sou o elo 
A semente jogada ao vento 
Sou a curva do paralelo 
A imensidão em cada momento 
Sou o inexistente 
Sou o frio fio da navalha 
Sou eu simplesmente 
Minha própria mortalha 


Na receita do destino sou passageira 
Para a pitada na mistura 
Onde sou fiel mensageira 
Das doses de amor sem censura 
Disposta como ângulo na geometria 
Traço desenhos com meu corpo 
Na mais perfeita simetria 
Em pele nua sem adorno 


Programada para ser amorosa 
Desfilo minhas palavras 
Meu vazio cor-de-rosa 
Como enfeite das lavras 
Sou também tão desconcertante 
Tão rota para o escracho 
A zombaria da hora 
No sério papel de capacho 
Como gentil senhora 


Sou o muito do nada 
O abalo da construção 
Ilha do oceano separada 
Mão dupla na contramão 
Sou o olho do furacão a fumegar 
Sou a lua uivando para sol 
Uma amante a mendigar 
Por uma estrela do arrebol

terça-feira, 10 de julho de 2012

Amadurecer





Vou tecendo as horas sem pressa
Nesse espaço duro
que desbota inexoravelmente
Reconheço em vão alguma promessa
sem esperança de futuro
morta para sempre


Engulo sóis e luas distintas
nascendo e morrendo na minha cama
cobrindo de fino pó, dourados sonhos
que redesenham na pele
o desejo de amanhecer diariamente

sexta-feira, 6 de julho de 2012

Absolvição




Por que não me tombas de vez?
Se teu frio em minha espinha passeia,
Batizes minha fronte suada.
Liberte-me das garras desse corpo cansado,
Dessa voz rouca, entrecortada.

Se te assentas à minha mesa,
Nesse convívio imposto e diário,
Cercas meus olhos, cala em mim as palavras;
Enquanto vertes absinto;
Que em doses me faze tragar.
Por que não me abrevias as horas?
Por que não me dissolves a essência,
Anula esse gosto hostil;
Que trago na boca amarga, 
Nos olhos de eterna ressaca?

Por que me dás o gozo do céu
Na alma branca, bailarina, criança?
E o fogo do inferno no corpo cativo;
Submisso e covarde...
Por que não me tombas de vez
Sem aliança, sem véus, 
Sem herança
No silêncio que me amanhece,
Ou na prece que em mim anoitece?

Por que me gela os pés e as mãos,
Acende em brasas o coração,
Limitas meus passos,
Me aprisionas em esperanças miúdas?
Por que me espreitas curiosa,
Me impõe horas escuras, sizudas?
Por que me abraças no leito;
Ameaças a minha razão?

Me tombe de vez no sangue vertido,
Faças cessar o desamor e a luta;
Há de haver algum sentido,
Nessa guerra de desamor e desesperança.
Faças cessar o gemido abafado;
O choro escondido atrás do riso,
Crave de vez meus olhos, nesse horizonte sem rumo,
Abarque meus sonhos vivos e vazios,
Cesse dos meus ossos, esse imenso frio

A mulher que ama




A mulher que ama tem um rio apressado
A correr pelas veias náufragas
Lavas de um vulcão descontrolado
Se derramando sobre o corpo tépido
Só de brilhos se veste seus olhos amantes
Marejados de alegria 
Ou transbordando choros arfantes,
Lapidados brilhantes
A mulher que ama destoa 
Se doa
Ri a toa
Volita sem asas
Tem o ventre em brasas
Não segura o seio que palpita
E sob a roupa se agita
Empina
Desatina
A mulher que ama perde o chão
Tem acessos de paixão
Não tem freios no coração
De amor de alimenta
Se sustenta
Se curva às esperas
Perde a fala, só vê a realeza
A beleza do seu amor
A mulher que ama se multiplica
Se santifica
Porque no amor se encanta
E com zelo 
Para ele canta
O amor de uma mulher é jóia sem preço
Entregue e revirada
Inteira, ao certo e do avesso

quinta-feira, 14 de junho de 2012

acabaria e acabou




acabaria, a gente sabia
como porta que bate
como sopro que se vai
e deixa cinzas no cinzeiro

acabaria, a gente sabia
pela porta que entrou
como final de um livro 
alegria compartilhada que esgotou

acabaria e acabou

terça-feira, 29 de maio de 2012

Ele



Ele me traga
Ele me usa
Ele não me afaga


Ele me consome
Ele me acusa
Ele não me come


Ele me constrange
Ele me deprime
Ele não se define


Ele me desarma
Ele me apronta
Ele sempre me afronta


Não me revelo
Não me demito
Vivo pelo mito

domingo, 27 de maio de 2012

Sol e Lua




Era um dia e uma noite
De dia o silêncio
A noite se servia de barulhos
Ambos se desencontravam
como sol e lua
mas assim como o sol 
enchia de luz e paz
a noite fervia de escuridão
atropelada de sons


De dia a vida sorria
ao compasso elegante
de brilhos carinhosos
enquanto a noite 
entrava furiosa
batendo o pé
rasgando toda alegria


Um dia se casaram 
de pirraça para o mundo.
O sol entristeceu 
por causa do barulho
e a lua se enfureceu 
com o silêncio
Nunca mais a vida foi feliz.

sábado, 26 de maio de 2012

Diet



Estou comendo angústias
Digerindo desilusões tantas
E engordando
engordando...


Não há regime 
que mate essa fome
de comer 
e comer sem parar.


Estou bebendo noite e dia
mágoas amargas
amarguras borbulhantes


Todos os dias
devoro tristezas
embrulhadas em sorrisos
recheadas de calorias
delícias doces
que dessalguem as lágrimas
ou aplaquem desejos


O colesterol sobe
o ponteiro sobe
as roupas apertam
e eu comendo sem parar
minhas dores diárias

Ela voltou!!




Ontem quando o sono me pesava sobre as pálpebras ela me arrastou da cama, desdenhando do friozinho e do adiantado da hora. Queria minha companhia, minhas mãos geladas além da minha emoção; que embora estivesse embolorada, sonada e um tantinho embrutecida. 
Cedi. Afinal uma amizade de quase uma vida inteira não podia ser ignorada. Ela que sempre me foi fiel, que sempre me acalentou quando eu sozinha estava, ou em lágrimas me debulhava; estava ali, agora, me procurando, me querendo e quase que desesperadamente me desejando a companhia.
Levantei-me tropeçando nos pés pois o remedinho demorara, mas já fazia efeito. Lá fui eu de caneta e diário em punho anotar suas tão esperadas palavras. Ela falou, falou e eu anotando sem parar. Ela realmente estava com saudades; pois não mais me largou e está aqui comigo abraçada à minha mão, que já não está mais gelada. Ela acariciou a minha alma como há muito não fazia.
Estamos nos entendendo de novo, porque  acho que ela voltou para ficar.
Que se dane o mundo. Que se dane o frio, o calor, a sede, a fome; com ela nada me falta.
Quero morrer abraçada à minha inspiração; ela é a alma que me anima, a sabedoria que me guia, o alimento que me sustenta e a companhia que me faz sentir prazer em viver.