Meu diário de bordo

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segunda-feira, 7 de julho de 2008

Estatutos do Poeta

Ao poetas deveria ser dado somente o direito de sonhar, sem ter que se preocupar com responsabilidades, sem ter que se guiar pelo relógios dessa terra...os poetas tem as estrelas e os astros como parâmetros...
Aos poetas não deveria ser dado nenhuma obrigação, não para fazê-los vagabundos, mas para deixá-los livres...para o mundo...
Aos poetas não se deveria impor o sacrifício de ganhar o seu sustento, o poeta precisa menos do alimento para o corpo que o linimento para a su´alma.
Aos poetas, jamais deveriam ser solicitadas prestação de contas...hora marcada...noção de dia e mês...nem se é de tarde ou madrugada...
Os poetas são seres sem amarras, sem censuras e sem travas...não sabem viver algemados, não suportam bater o ponto...não são felizes....com asas, cortadas...
Os poetas deveriam ser perdoados dos esquecimentos...dos seus devaneios fora de estação...
Os poetas deveriam ser poupados da razão...deveriam ter o direito de interromper o que quer que fosse, para rabiscar um pensamento....rascunhar um poema, em qualquer lugar que estivesse ...em qualquer hora que a inspiração chegasse...para jamais correrem o risco de se perderem de sua alma, nos momentos de vôos...que só aos dois pertence...
O silêncio, é o combustível do poeta...e deveria ser respeitado...tanto quanto sua tristeza, que não poderia nunca ser investigada...
O poeta gosta da solidão...convive muito bem consigo mesmo, ainda que exploda em versos, prosas e muitas palavras soltas...em tantos pensamentos, até sem cabimentos...o poeta só precisa de um ouvinte, um leitor atento...de carinho, afagos e um, colo sossegado ...para vaguear os seus desvarios...
O poeta é um amável insensato, que dorme quando deveria estar acordado...e tem insônia quando o mundo todo dorme sossegado...
Ao poeta, se deveria perdoar a loucura...a pouca compostura...o cabelo despenteado, o olhar esgazeado...pois a insanidade do poeta é eterna...além da saudade...pois sem saudade, o poeta não hiberna...
Os poetas são sonhos personificados...e só por isso deveriam ser cortejados, respeitados e poupados das mágoas desse mundo...pois já tem as suas próprias...poupados deveriam ser das dores...pois já sangram, sensivelmente pelas dores do ser amado...
Aos poetas, a anistia da razão...a euforia da emoção e o beijo delicado...
Ah! Os poetas, esses gentis amantes...com suas paixões intermitentes e eternos amores...são deliciosamente ousados...e infinitamente atraentes...
Que se lavrem o estatuto...que se reconheçam esse tratado...
Que se abram as portas e que seus vôos beijem, o azul da imensidão...sem regras, sem rótulos e sem grilhões...enquanto ainda vivem os poetas nesse mundo de ilusões....

Um réquiem inacabado

Um réquiem inacabado

Se ardo como brasa pelas palavras é porque fujo da razão literalmente e não me importo que pareça uma demente desatinada; dentro dos ciclones onde habito, há muito mais razões que nos chãos por onde piso.
Arder em palavras nem sempre deveria ser traduzido como furor, e sim como avalanche de sentimentos, como rios caudalosos que a gente não consegue conter. A cada momento, sou tomada de novas sensações, a cada momento meu corpo envia mensagens ao meu intelecto, da mesma forma que minh'alma e meu espírito, esse conjunto que sou, de muitas engrenagens se soma e traduz para a minha cabeça e coração as muitas formas de sentir e experimentar a vida e suas implosões e explosões.
Muitos são os meus habitats, muitos são os meus rumores, muitas são as minhas doses de euforia como muitos são meus desejos de tudo provar. Como um braço forte que me ampara e sustenta está a mão atada às palavras, arrimos da minh'alma. Atemporais são os meus súbitos, meus arroubos, da mesma forma que são os meus mergulhos intensos e refluxos temperamentais, porque habito sobre os meus pilares.
Que eu queime ou me afogue, tanto faz, a densidade que me agita, não é escolha própria, e sim submissão consentida. Enquanto aguardo os sinais vitais se queimarem sobre altares em homenagens póstumas, danço por entre as pirações que me permito sem reservas.
Há muito me perdi das amarras que aprisionam meus cantares, mas há muito ainda para transcrever da tessitura da minha e das almas que me pertencem, ou das que muito próximo, me habitam.
Sou um mundo inacabado de muitas camadas caiadas, mas nada em definitivo, não saberia das formas, e se as soubesse morreria a busca e com ela os desejos e vontade imensa de navegar sem rumo...
Serei ainda um réquiem inacabado quando em fogo fáctuo reluzir; enquanto meu corpo descer pelas camadas da terra que me abriga.

Não desejo ser compreendida



Angélica T. Almstadter

Sou o sonho solitário que rompe os muros dessa prisão...Sou o vento libertário que invade os ares em busca de comunhão...sou a branca nuvem desse teu céu em harmonia...sou a paz na tua melodia...
Sou o rio que explode no leito inexplorado...sou o veio rasga a terra com sede de viver...
Sou a sede da natureza...sou a voz embrutecida...o sal da terra...a voz que grita...se agita...se contorce...
Sou o brado em meio ao deserto...a tempestade que sufoca...o banquete dos faraós...não sou pó...nem oásis nesse mar de sol abrasador...sou a linfa que circula nas entranhas da areia...
Sou espuma ruidosa que se desmancha na areia escaldada...sou minguante na maré das luas adolescentes...sou veleiro perdido na tirania das marolas...
Não sou a paz das espadas desembainhadas...sou guerreira errante nessa ampulheta de bandeiras hasteadas...
Não me pertenço...não sou rumo nessa esfera em que bailo...
Não sou brilho nessa nesga de luz que atravesso...sou a parte amputada da história que conta suas glórias...atravesso o buraco negro...em vôos rasantes...me mantenho atemporal...sazonal...a medida que me guardo no olho do furacão...como chispa incandescente...fagulha acesa...que carece de lenha para arder...
Não desejo ser compreendida...borbulho pela borda da vida e como bebida preferida...me aceito e me derramo...só quero ser sentida...

domingo, 6 de julho de 2008

Anjo e Demônio
Angélica T. Almstadter

Trago dentro do corpo uma prece e um pecado...
uma prece que me guia e um pecado que me consome...Trago dentro de mim um templo e um altar...
um para o recolhimento outro para encantamento...
enquanto num chora o anjo no outro arde a chama da carne...Sou o avesso da orgia e uma porta para a utopia...
em mim tudo habita...
no prazer de cada gesto ou na loucura de cada movimento brusco...
na mão pousada em repouso, pela delicadeza de um momento ou na dança dos corpos em muitos movimentos...
entre um átomo e o universo o início e o fim de cada ato...No fio tênue que balança num riso hilário, passeia minha pele e minha sensatez, uma porque é acesa e a outra que me mantém no fio do equilíbrio...
uma que sustenta a linearidade e outra que desliza no fio da navalha,
têmpera de igual textura, afiada na mesma forja.Trago dentro de mim uma anjo e um demônio...
um que me segura e outro que me empurra...
um que me mima e outro que me alucina...Tenho dentro das minhas entranhas fel e mel,
fogo e água, nem sempre na mesma proporção, mas sempre em profusão...
nunca uma mistura, na essência que me segura, cada manifestação é pura.Sanidade ou loucura nem pouca nem muita,
doses exatas para o bom rendimento...
diante da veia torta que explode ou diante da santidade que me agita...
E só uma que em mim grita...a minha alma aflita....
que nunca sabe onde se prostra, onde se encosta,
se na polaridade da minha vontade ou na liberdade que o vento mostra...Trago dentro de mim a vida e a morte...
em doses não muito precisas...
Num talho da vida o amor jorra...
e num jorro sem norte, a ceifa colhe a sorte...

...e os selos foram abertos


...e os selos foram abertos
angélica t. almstadter
(grafite Platão da minha filha Jussara)

por onde me campeia a vida que anseio?
se dentro dessa taça me afronta sem receio,
me fere a boca que reage suculenta
ao som do peito que aos poucos se arrebenta.
por onde me pega essa vida infeliz
que arde e dói como recente cicatriz?
por onde há de entrar essa ingrata
que amacia os sons e cruelmente maltrata?
ah! mísera fonte das minhas alucinações
mentira vistosa, taça de privações!
por onde me pega sem fala
desfilando o provado com gala,
qual gosto doce de fantasioso veneno,
rabiscado para eu crer ainda terreno.

por onde me agita essa incerteza aflita,
que agoniza feito mentira bonita;
deve passear em alguma praia sem graça
rindo da certeza maluca como troféu na praça
erguido sob o aplauso pomposo.
plantado lá atrás quando nem era mentiroso
um prêmio avidamente buscado e conquistado,
hoje, amarelado, duramente castigado
não tem mais orgulho da sua valia
é fora de uso, um quase museu de anomalia.

era ela e eu um dia por pura utopia,
bebendo no mesmo gole de euforia
o banquete dos atrevidos, sem meias verdades;
e quem disse que se constrói sem iniqüidades?
nenhum alicerce se levanta para o futuro
sem mentira, sem golpes por trás do muro.
um brinde à conquista do pecado
que mata sem mandar recado!

por onde anda sem mais desvelo
a pouca vida enrolada nesse vil novelo,
que se perde numa multidão consumível
plano roto, praticamente inexeqüível
que pode ser derramado sem disputa,
numa única e frágil taça de cicuta...
Canto para um anjo amigo (Eron)

Angélica T. Almstadter

O mundo por instantes estaria deserto,
Se eu não tivesse o abraço dos amigos.
O cinza do dia rasgaria meu peito aberto,
Se não me rondassem anjos, nos perigos.

Não haveria eco aos meus cânticos,
Ainda que silencioso, mas de puro carinho,
Se não fossem esses anjos românticos
Que me abraçam quando me aninho.

Assim quando as lágrimas me afogam;
Oro com fervor em estrofes poéticas,
Para os anjos amigos que me afagam.

Um canto novo por um amigo essencial,
Que me estica na face um sorriso frouxo
Lembrando-me que pra Deus, sou especial.


CANTO PARA UMA AMIGA (Angélica) (Eron)


Ser um anjo pra você seria uma honra,
bem maior do que aquela que mereço..
Por isso me contento em ser um grande amigo,
embora não saiba sequer seu endereço.

Basta saber, apenas, que existo! E que existe
Num lugar que foge ao meu alcance visual,
Mas se me disser que se encontra triste,
Dou-lhe meu apoio na distância abissal!

Não precisa de pão... nem está sedenta!
Precisa tão somente de uma voz que oriente
como abrir veredas pra seguir o seu caminho...

O socorro de que tanto precisa não é material!
Vai encontrá-lo pesquisando no sentimental,
em toda palavra que lhe leve algum carinho!

Desapego

Desapego
Angélica T. Almstadter
24-05-08

Um pouco a cada dia, solenemente,
Intensamente em cada hora
Morro. Com satisfação e gozo.
Delinqüente sobrevivente que sou
Antevejo a epopéia do desenlace,
Sufocada na agonia.
Alma túrgida de funestos desejos,
Abraço em desespero o caos
Que antecede o silêncio sepulcral.

Cepticismo
Angélica T. Almstadter
09-05-08

Tão perto dos teus olhos
E tão longe do teu querer,
Como no dia em que vi a luz primeira
Nos cantos e louvores entoados com alegria.

Meus pés sangraram tantas vezes,
A garganta secou de tantas palavras
Tanto quanto pela sede delas.
Nunca me viste realmente!

Meu coração nunca se aquietou
O desejo de sabê-lo me queimava,
A certeza de senti-lo dava-me esperanças;
Só ao redor de mim te manifestavas.

Marquei hora, dia e não chegaste.
Esperei pelo teu tempo que não chegou.
Gastei o chão indo a tua procura,
Estavas para além de mim, nunca para mim.

Fechei os olhos, o coração e a porta.
Não virás, hoje eu sei.
Meu coração embruteceu de esperar
Por um amor que nunca me abraçou.