Meu diário de bordo

sexta-feira, 6 de julho de 2012

Absolvição




Por que não me tombas de vez?
Se teu frio em minha espinha passeia,
Batizes minha fronte suada.
Liberte-me das garras desse corpo cansado,
Dessa voz rouca, entrecortada.

Se te assentas à minha mesa,
Nesse convívio imposto e diário,
Cercas meus olhos, cala em mim as palavras;
Enquanto vertes absinto;
Que em doses me faze tragar.
Por que não me abrevias as horas?
Por que não me dissolves a essência,
Anula esse gosto hostil;
Que trago na boca amarga, 
Nos olhos de eterna ressaca?

Por que me dás o gozo do céu
Na alma branca, bailarina, criança?
E o fogo do inferno no corpo cativo;
Submisso e covarde...
Por que não me tombas de vez
Sem aliança, sem véus, 
Sem herança
No silêncio que me amanhece,
Ou na prece que em mim anoitece?

Por que me gela os pés e as mãos,
Acende em brasas o coração,
Limitas meus passos,
Me aprisionas em esperanças miúdas?
Por que me espreitas curiosa,
Me impõe horas escuras, sizudas?
Por que me abraças no leito;
Ameaças a minha razão?

Me tombe de vez no sangue vertido,
Faças cessar o desamor e a luta;
Há de haver algum sentido,
Nessa guerra de desamor e desesperança.
Faças cessar o gemido abafado;
O choro escondido atrás do riso,
Crave de vez meus olhos, nesse horizonte sem rumo,
Abarque meus sonhos vivos e vazios,
Cesse dos meus ossos, esse imenso frio

2 comentários:

Maria da Graça Almeida disse...

Uma beleza de escrita, dolorida, inquietante... Gostei muito! Grande abraço, Maria da Graça Almeida

Paulo Tamburro. disse...

Nossa, ANGÉLICA,

quem resistiria a chamado tão enternecedor e sensível como este?

Quem resistiria a não olhar para atrás se já tivesse ido, ou sair correndo se você estivesse à frente?

Quem?

Só um homem que nunca conheceu o que significa um abraço sem prazo de validade em um corpo quente e generoso de entrega,resitiria.

Sou um fraco.

Abração carioca.