Meu diário de bordo

terça-feira, 9 de junho de 2009

Com a cara no mundo


Quando nasci fui recomendada solenemente, encarnaria em anjo o meu demônio, e caminharia em orlas ardentes. Seria de mim mesma paz e desassossego, e não me veria pronta nunca, mas pelas pontas rutilantes das minhas palavras arranharia e seria arranhada na alma e na carne.
Quando meu primeiro choro salgou a pele, tive a sensação de primeira chuva, e na primeira
chuva meu primeiro choro.
 Rasguei os estatutos e quebrei as normas, não me cabem regras se não me amoldo ao barro dos eretos e não vergo aos estilhaços da fala.
Fui consagrada na homília dominical e rompi o círculo das cabalas. Sou um corpo iniciado nas mandalas, circunscrevendo meu próprio espaço.
Me coloco na pira em que ardo incessante porque sou de mim, salvação em holocausto.
Não comungue na mesma patena, há de ter nela o meu sangue vertido em pecado. Consagra a sua oferenda a rebeldia dos insensatos e se aceita; terei em mim o seu pecado original, a Gênesis em essência.
Quando escancarei a cara no mundo profanei os tabernáculos e oráculos, botei o pé na profecia, e bem antes que me dessem as  chaves da existência eu já rompia com as exigências; pra me fazer carta e cartilha nesse jogos que se joga as avessas.
Se nos púlpitos da excelsa divindade eu me adorar, saiba que neles fui cuspida e cabalmente concebida.
Adentrei a vida pela margem oposta, segui sendas nem sempre muito sacras; sou quebra-cabeça e caleidoscópio, em constante mutação. Essa sou eu, mil vezes renascida, sutilmente escarrada na sua porta de entrada.

3 comentários:

IVANCEZAR disse...

Deslumbrado com o texto
Simplesmente belíssimo !
Por favor, Angélica, faltou um "s" no seguinte parágrafo:

Quando escancarei a cara no mundo profanei os tabernáculos e oráculos, botei o pé na profecia, e bem antes que me dessem a chaves da existência eu já rompia com a (AS) exigências;

Este é um daqueles textos que merece todos os "detalhes"
beijo

Cristiano Melo disse...

Angélica,
criamos alguns "buracos" que nele cabem qualquer nome, e neles, quando nos metemos a revê-los, causam a mesma sensação, a melancolia, o choro, a mágoa, tudo vem, mas tudo vai também. O buraco fica, talvez seja nele o foco do trabalho.
Prosa de se refletir como gente que somos.
A arte como fonte libertadora.
beijos

Nydia Bonetti disse...

Humana, você... Que texto, Angélica! Excepcional.
beijooo