Meu diário de bordo

terça-feira, 30 de junho de 2009

domingo, 28 de junho de 2009

Perfil

Imagem manipulada a partir de um grafite de Angélica, pela própria.
Série: Poemagem

sábado, 27 de junho de 2009



Ah, se vai
Angélica T. Almstadter
29-05-05

Vai me abraçar o corpo molhado,
Não do banho levemente perfumado;
De chuva regado com delicadeza.
Vai beijar minha boca com sutileza,
Não com o beijo rotineiro;
Mas num ritual de toques orquestrados,
Dos desejos mais aventureiros,
Vai passear em procissão;
Sobre as letras da minha canção
E pedir que eu esteja até o pescoço
Encharcada de tesão.
Só depois de me sentir até o osso,
Em doses homéricas;
É que vai adormecer no bamboleio,
Do vai e vem do meio seio.

terça-feira, 23 de junho de 2009

espasmos emocionais















concepção artística
Angélica
mãos atadas,
pensamentos livres
um clique duplo na palavra
e surgem picos, estatísticas
e ecos sem sentido.
morreu um pouco da intenção
no descarte de sentimentos
anunciados ou não.
vazio...
no peito bate um silêncio descompassado
recheado de angústia;
poética prosa
revira no estômago enauseado.
poema febril estremece o corpo
em espasmos emocionais...
vazio...
falta o ar, pressão no peito,
rimas entalam nas artérias
a vida se esvazia
no enfarte das palavras.

terça-feira, 9 de junho de 2009

Com a cara no mundo


Quando nasci fui recomendada solenemente, encarnaria em anjo o meu demônio, e caminharia em orlas ardentes. Seria de mim mesma paz e desassossego, e não me veria pronta nunca, mas pelas pontas rutilantes das minhas palavras arranharia e seria arranhada na alma e na carne.
Quando meu primeiro choro salgou a pele, tive a sensação de primeira chuva, e na primeira
chuva meu primeiro choro.
 Rasguei os estatutos e quebrei as normas, não me cabem regras se não me amoldo ao barro dos eretos e não vergo aos estilhaços da fala.
Fui consagrada na homília dominical e rompi o círculo das cabalas. Sou um corpo iniciado nas mandalas, circunscrevendo meu próprio espaço.
Me coloco na pira em que ardo incessante porque sou de mim, salvação em holocausto.
Não comungue na mesma patena, há de ter nela o meu sangue vertido em pecado. Consagra a sua oferenda a rebeldia dos insensatos e se aceita; terei em mim o seu pecado original, a Gênesis em essência.
Quando escancarei a cara no mundo profanei os tabernáculos e oráculos, botei o pé na profecia, e bem antes que me dessem as  chaves da existência eu já rompia com as exigências; pra me fazer carta e cartilha nesse jogos que se joga as avessas.
Se nos púlpitos da excelsa divindade eu me adorar, saiba que neles fui cuspida e cabalmente concebida.
Adentrei a vida pela margem oposta, segui sendas nem sempre muito sacras; sou quebra-cabeça e caleidoscópio, em constante mutação. Essa sou eu, mil vezes renascida, sutilmente escarrada na sua porta de entrada.

domingo, 7 de junho de 2009

Canto do desencanto


quem abraça os insensatos
nessa língua morta, explicitamente lógica?
os tapa buracos que ridiculamente caminham
qual Vênus em noite de pompa?
o morno diálogo dos refinados,
que tem pés de pavão e rabo enfeitado
sem a valia dos apaixonados?
 
é no barro amassado do peito que agoniza,
onde o farfalhar de asas ameaça
e o chão da estupidez seca lágrimas rotas,
que brotam estrelas radiantes
sem aplausos, sem honra de ourivesaria
iluminada sem candeias por luas pálidas
atravessadas de horas amargas.
 
não é preciso cortinas nem púlpito,
só um fiapo de ilusão, amarelada de esperança,
para ganhar encanto na boca sem riso,
canto sem juízo vestido de criança.
é só descompasso que não cabe no peito
calor e frio sem explicação,
água que queima no leito do rio
ou riacho que cabe na palma da mão.
 
não conhece o caminho da felicidade
quem nunca escreveu uma jura,
quem não rasgou o ventre de agonia
ou não experimentou uma doída saudade.
não sabe mesmo o que é ternura,
quem só arrota filosofia
sem ter calçado nos dias a simplicidade.
 
morre sem afago o canto gago
no açoite da cruel indiferença;
quatro cantos vazios na mesma sentença,
arte sem arreios que  bóia na solidão do lago,
canto de sonho marginal, divina crença
porque nasce pura, cresce bruta
sem aparato mascarado,
beija a pele, balança ao vento, cavalga sem cela
desencanto açucarado
amadurecendo feito fruta,
com o olhar penso por uma janela...

sábado, 6 de junho de 2009

E quando...
Angélica T. Almstadter
 
E quando, as luzes se apagam;
Eu, estrela solitária, ainda sorrio alheia,
Tenho brisas que me afagam...
 
Te vais, com as folhas varridas,
Eu, fico com a vida, que em mim incendeia,
Nessas noites doloridas...
 
E quando, escondemos nossos cacos;
Eu, sangro pela vida que em mim se desnorteia,
Sepultando sonhos intactos...

sexta-feira, 5 de junho de 2009

Diário de fuga III


não há música no ar
nem marca de passos no jardim
só um leve perfume insiste
em penetrar por todo o ambiente.
 
minha voz responde ao eco de um riso
que inicia leve e enche o ar
cheio de interrogações
misturando-se ao aroma.
 
num minuto tudo se acaba
o silêncio volta seco novamente;
as lembranças quando acordadas
fogem com medo das dores de outrora.

Pensamento


A vida se sustenta nos ventos
que são levados ao sabor dos sonhos,
Se acordar sem mudar de lugar`
é porque já está no lugar certo.

quarta-feira, 3 de junho de 2009

Palavras molhadas


Eu chorei tantas palavras doloridas
que você não leu,
Chorei em tantos papéis
palavras, que por fim rasguei.
E chorei um choro sentido
em telas que com raiva apaguei.
 
Nunca você viu uma lágrima
nos meus olhos risonhos,
elas só molharam os papéis e telas
que você nunca leu...
 

Diário de Fuga II

Angélica T. Almstadter
03-06-09
 
 
Não sobraram gestos,
palavras
nem os silêncios
tão cortantes
e tão reveladores.
 
Quebrou-se a cumplicidade
que nunca encheu uma taça.
Foi ao vento espalhado
sem cerimônia 
todo carinho acumulado
durante anos.
 
Quando nossos olhares
órfãos se encontram
revelam pedidos secretos
de abraços
apertados, acalorados
como há muito não se permitem.