Meu diário de bordo

sexta-feira, 22 de agosto de 2008

Com a cara no mundo

Angélica T. Almstadter

Quando nasci fui recomendada solenemente; encarnaria em anjo o meu demônio,
e caminharia em orlas ardentes. Seria de mim mesma paz e desassossego,
e não me veria pronta nunca, mas pelas pontas rutilantes das minhas palavras
arranharia e seria arranhada na alma e na carne.
Quando meu primeiro choro salgou a pele, tive a sensação de primeira chuva,
e na primeira chuva meu primeiro choro.
Rasguei os estatutos e quebrei as normas, não me cabem regras se não me amoldo ao barro dos eretos e não vergo aos estilhaços da fala.
Fui consagrada na homília dominical e rompi o círculo das cabalas.
Sou um corpo iniciado nas mandalas, circunscrevendo meu próprio espaço.
Me coloco na pira em que ardo incessante porque sou de mim, salvação em holocausto.
Não comungue na mesma patena, há de ter nela o meu sangue vertido em pecado, consagra a sua oferenda à rebeldia dos insensatos e se aceita; terei em mim o seu pecado original, a Gênesis em essência.
Quando escancarei a cara no mundo profanei os tabernáculos e oráculos, botei o pé na profecia, e bem antes que me dessem a chaves da existência eu já rompia com a exigências; pra me fazer carta e cartilha nesse jogos que se joga as avessas.
Se nos púlpitos da excelsa divindade eu me adorar, saiba que neles fui cuspida e cabalmente concebida. Adentrei a vida pela margem oposta, segui sendas nem sempre muito sacras; sou quebra-cabeça e caleidoscópio, em constante mutação.
Essa sou eu, mil vezes renascida, sutilmente escarrada na sua porta de entrada.

sábado, 16 de agosto de 2008

afetos
angélica t. almstadter
22/09/05

sem afetação, assisto brilhos de neon
entre uma faísca e um risco desse giz
vejo um nome, penso; sine qua non
me esmero sem reservas, por um triz
reino no habitat dessa alegoria

quem te sabe o sabor verdadeiro
ou passeia nessa louca alegria?
terá teto tua primícia? rota carícia...
laços brancos primeiros, donde sinto cheiro
de beijos francos num punhado de malícia

à margem das palavras doces
sorriem as lágrimas quentes
sopa de disfarces pingando poses
em diálogos quase permanentes
rabiscando saudade
angélica t. almstadter

sem a mesma graça de ontem
sem a mesma mão pousada
os dias correm brancos
um olho cego se deixa a procura
do tempo que passeia nos espaços abertos
dentro de tres paredes
não há mais eco que responda
saiu pela porta sem aceno
pra voltar a qualquer minuto

o caiado amarela sem pressa
ouvindo o sussurro abafado
chovem pétalas nas palavras guardadas
dentro das páginas do novo dia
onde rabiscar tanta saudade?

quarta-feira, 13 de agosto de 2008



Tète a Tète
Angélica T. Almstadter

Quero o olhar de frente, encarado, escancarado, como se fosse sempre a primeira vez.
Quero o mesmo olhar que desnuda a pele, que despe pelas palavras, que anseia, que procura, e que sabe por onde, e quando chegar.
Deixo atrás da porta as palavras ditas por dizer, as roupas dependuradas; cá dentro só a aventura de descobrir os nossos caminhos, a mansidão das poucas palavras, o sibilos dos sussurros, o ensaio dos corpos e seus desejos...
Quanta mentira dita e aceita, e quanto eco pelas paredes que recaem sobre nossas bocas espelhadas de paixão servil e submissa. Ainda assim quero sentir os cheiros todos misturados como terra revirada que exala odores de vida, por que tem as entranhas prontas e preparadas para a semeadura.
Bata a porta do lado de dentro e esqueça os trajes do cotidiano, a água morna cai sobre o tépido corpo que reveste a alma que te espera há muitas décadas. Só de perfumes e lapsos de lembranças são tecidas nossas histórias, relaxa e aceita mais uma vez a tua eleita.
Há muito mais de nós em cada volta do ponteiro, já que nos sabemos mesmo antes desse tempo que nos abriga. Há muito mais de nós nesses refúgios que só nós sabemos existir, por que antes desse tète a tète já nos sabíamos.
E só por isso quero mais hoje do que ousaria querer algum dia...

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

Venialidade
Angélica T. Almstadter
10-10-07


Maldita alma prenhe de paixão,
Que na antesala do coração se omite
E deixa ansiosa escapar-lhe a razão.
Em que dor se enrodilhou sozinha?
Maldita seja a ilusão que assim permite!

Não é o corpo que a alma cinge,
Seria como se a morte antecedesse a vida.
Cunha na carne o fogo da agonia,
Para que sobre o altar adormeça
Aquela que abraçou a vestal.

Dispa-se do furor da língua
Sem segredos , sem melancolia.
Segrega do corpo toda a cobiça;
Pois à mesa o vinho banha o pão que míngua,
Antes da comunhão de cada dia.

Maldita insurreição anunciada,
Vigorosa prova de fraqueza,
Que serve em cultos a carne vil;
Enquanto adoenta a sobriedade do espírito.

Rasga a pele com palavras amargas,
Mata a sede com penitências duras.
No mais profundo escuro da alma
A vida pulsa límpida e pura,
Servil e solitária como deve ser.