Meu diário de bordo

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Só seixos rolam

Angélica T. Almstadter
16-12-08

São muitas as arestas cruas
cantos vivos a ferirem os olhos
nada que o tempo reconstrua.

Nós quebrados não se encontram
não formam laços. São peças soltas
sem significado, e que encruam.

Pedras brutas agarradas ao limbo
seixos não nasceram pra ser
afastam de si, mas não deixam o ninho.

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Belas novas e velhas rugas
Angélica T. Almstadter

Essa ruga leve que marca meu olhar,
contam das noites e dias
onde fui procurar o que nem sabia existir.
As mais profundas se fixaram aí
quando encontrei e me deixei absorver
por aquilo que conheci em detalhes.
Mesmo quando os olhos já não brilham
com a mesma intensidade,
a expressão se modifica a cada dia
e as rugas ao redor dos olhos se avolumam
meu espírito está em paz, já que a cada dia
somo um tantinho mais nessa
experiência fantástica que é a vida.

domingo, 9 de novembro de 2008

Cotidiano






O fio supunha viver na retina
flertando com as cores
tracejando imagens íntimas,
só não sabia estar pintando ilusões.

bailava entre as luzes
o seu dourado tom
soprado pelo aceno do vento
entre uma jura e um poema.

ficou suspenso por lá
imortalizado na cena romântica,
calado, pairando sensações
nada mais sensato
que ser eternamente sentido.

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

Entre um dia e uma Noite
Angélica T. Almstadter

Dei-te horas inteiras, e me devolveste minutos apenas...
Dei-te meus sorrisos fartos, e com semblantes fechados, me presenteaste...
Por que me deste dosados carinhos, se em torvelinhos me doei ?
Olho para o relógio das lembranças, ficou parado há tanto tempo...que já nem me lembro mais...talvez em algum dia quando ainda me querias...
Falta-me tempo para recompor as peças desse quebra-cabeças que somos nós, fragmentos espalhados que mal consigo encontrar...tão poucos e se espaçaram tanto ...
Tenho vivos em mim, espetados na carne, os estilhaços das conversas atravessadas...das dúvidas, nunca explicadas...Incomodando tenho as separações com ásperas palavras...olhares não trocados, porque desviastes para outras direções, enquanto eu tentei outras sugestões...
Engraçado que, embora tenha na boca um gosto amargo, e saudades de ter de ti lembranças...estou em paz...
Olho a chuva pela vidraça...e deitada nessa cama tão vazia de ti, sinto um misto de alívio e frio...abraço meu corpo e acarinho meus cabelos como antes nunca tivera feito, não, não dessa forma sensata, sabendo exatamente o que quero...fecho os olhos e deixo a mente vagar...
Há dias que sei que vou me rasgar, teu fantasma vai me rondar, nesses dias sei que vou regar a solidão dos meus ponteiros com lágrimas quentes...mas juro, que jamais saberás...porque entre um dia e uma noite hei de morrer e renascer tantas vezes quanto carecer...

sexta-feira, 22 de agosto de 2008

Com a cara no mundo

Angélica T. Almstadter

Quando nasci fui recomendada solenemente; encarnaria em anjo o meu demônio,
e caminharia em orlas ardentes. Seria de mim mesma paz e desassossego,
e não me veria pronta nunca, mas pelas pontas rutilantes das minhas palavras
arranharia e seria arranhada na alma e na carne.
Quando meu primeiro choro salgou a pele, tive a sensação de primeira chuva,
e na primeira chuva meu primeiro choro.
Rasguei os estatutos e quebrei as normas, não me cabem regras se não me amoldo ao barro dos eretos e não vergo aos estilhaços da fala.
Fui consagrada na homília dominical e rompi o círculo das cabalas.
Sou um corpo iniciado nas mandalas, circunscrevendo meu próprio espaço.
Me coloco na pira em que ardo incessante porque sou de mim, salvação em holocausto.
Não comungue na mesma patena, há de ter nela o meu sangue vertido em pecado, consagra a sua oferenda à rebeldia dos insensatos e se aceita; terei em mim o seu pecado original, a Gênesis em essência.
Quando escancarei a cara no mundo profanei os tabernáculos e oráculos, botei o pé na profecia, e bem antes que me dessem a chaves da existência eu já rompia com a exigências; pra me fazer carta e cartilha nesse jogos que se joga as avessas.
Se nos púlpitos da excelsa divindade eu me adorar, saiba que neles fui cuspida e cabalmente concebida. Adentrei a vida pela margem oposta, segui sendas nem sempre muito sacras; sou quebra-cabeça e caleidoscópio, em constante mutação.
Essa sou eu, mil vezes renascida, sutilmente escarrada na sua porta de entrada.

sábado, 16 de agosto de 2008

afetos
angélica t. almstadter
22/09/05

sem afetação, assisto brilhos de neon
entre uma faísca e um risco desse giz
vejo um nome, penso; sine qua non
me esmero sem reservas, por um triz
reino no habitat dessa alegoria

quem te sabe o sabor verdadeiro
ou passeia nessa louca alegria?
terá teto tua primícia? rota carícia...
laços brancos primeiros, donde sinto cheiro
de beijos francos num punhado de malícia

à margem das palavras doces
sorriem as lágrimas quentes
sopa de disfarces pingando poses
em diálogos quase permanentes
rabiscando saudade
angélica t. almstadter

sem a mesma graça de ontem
sem a mesma mão pousada
os dias correm brancos
um olho cego se deixa a procura
do tempo que passeia nos espaços abertos
dentro de tres paredes
não há mais eco que responda
saiu pela porta sem aceno
pra voltar a qualquer minuto

o caiado amarela sem pressa
ouvindo o sussurro abafado
chovem pétalas nas palavras guardadas
dentro das páginas do novo dia
onde rabiscar tanta saudade?

quarta-feira, 13 de agosto de 2008



Tète a Tète
Angélica T. Almstadter

Quero o olhar de frente, encarado, escancarado, como se fosse sempre a primeira vez.
Quero o mesmo olhar que desnuda a pele, que despe pelas palavras, que anseia, que procura, e que sabe por onde, e quando chegar.
Deixo atrás da porta as palavras ditas por dizer, as roupas dependuradas; cá dentro só a aventura de descobrir os nossos caminhos, a mansidão das poucas palavras, o sibilos dos sussurros, o ensaio dos corpos e seus desejos...
Quanta mentira dita e aceita, e quanto eco pelas paredes que recaem sobre nossas bocas espelhadas de paixão servil e submissa. Ainda assim quero sentir os cheiros todos misturados como terra revirada que exala odores de vida, por que tem as entranhas prontas e preparadas para a semeadura.
Bata a porta do lado de dentro e esqueça os trajes do cotidiano, a água morna cai sobre o tépido corpo que reveste a alma que te espera há muitas décadas. Só de perfumes e lapsos de lembranças são tecidas nossas histórias, relaxa e aceita mais uma vez a tua eleita.
Há muito mais de nós em cada volta do ponteiro, já que nos sabemos mesmo antes desse tempo que nos abriga. Há muito mais de nós nesses refúgios que só nós sabemos existir, por que antes desse tète a tète já nos sabíamos.
E só por isso quero mais hoje do que ousaria querer algum dia...

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

Venialidade
Angélica T. Almstadter
10-10-07


Maldita alma prenhe de paixão,
Que na antesala do coração se omite
E deixa ansiosa escapar-lhe a razão.
Em que dor se enrodilhou sozinha?
Maldita seja a ilusão que assim permite!

Não é o corpo que a alma cinge,
Seria como se a morte antecedesse a vida.
Cunha na carne o fogo da agonia,
Para que sobre o altar adormeça
Aquela que abraçou a vestal.

Dispa-se do furor da língua
Sem segredos , sem melancolia.
Segrega do corpo toda a cobiça;
Pois à mesa o vinho banha o pão que míngua,
Antes da comunhão de cada dia.

Maldita insurreição anunciada,
Vigorosa prova de fraqueza,
Que serve em cultos a carne vil;
Enquanto adoenta a sobriedade do espírito.

Rasga a pele com palavras amargas,
Mata a sede com penitências duras.
No mais profundo escuro da alma
A vida pulsa límpida e pura,
Servil e solitária como deve ser.

quinta-feira, 31 de julho de 2008


Profana

Angélica T. Almstadter
02-06-05



Estanco debaixo do chuveiro;
Para escorrer os meus pecados,
Rogo a calma desse braseiro
Em sussurros derramados.

Pelo ralo desaparece insensato;
O desejo no afã cobiçado
Desprendido sem nenhum recato.
Pelo na pele eriçado.

Lava a alma e a carne fértil,
A corrente de água pura.
Faz de novo a mente débil

Recolhida na veste de alvura;
A simulação branda e estéril
De apropriada compostura.
incensos carnais
angélica t. almstadter
16.09-05

nas lâminas dos meus olhos
tenho a presa dominada
corre um rio escasso de seculares medos
nesse fio da tempera afiada

em rituais hereges ofereço
vida e morte abraçadas
taças derramando flores
e pétalas de lágrimas bordadas
nas vértebras brancas

beijada será a virgindade
até o amanhecer,
limpa e pateticamente guardada
junto aos lábios intactos

queimam os incensos carnais
refugiados dos olhares tolos
entre sedas e rendas
à luz da chama que oscila
em comunhão com a lua

terça-feira, 29 de julho de 2008

qual das duas?






tolos
Angélica T. Almstadter
grafite de Jussara Almstadter

aplauso aos novos valentes
Ícarosque se lançam em cegos vôos.
e de novo, sem que se perceba a banda de pífaros
toca agudas melodias, de tantos enjôos
ajunta em banquete, ratos e tolos
com risos altos e estridentes;
imbecis alimentados por miolos
súcia de bastardos sobreviventes.
sem vôos e sem asas revelam
a aridez dos passos nos pés rachados,
têm ouvidos moucos os desafinados,
nunca sonharam alçar os céus
devoram com avidez o que regurgitam;
pobres estampas sem véus,
nunca passarão de criaturas
sem alados sonhos perseguirem;
uma platéia de iguais figuras
que na ânsia de só engolirem,
jamais provarão o gozo do vento
nem a tentativa da empírica construção
de serem Ícaros por um único momento,
nessa grotesca forma sem evolução...
apanha essa lua...
angélica t. almstadter
07-02-06

apanha essa lua pra mim
bota ela pra dormir nos meus olhos
boiando nas lágrimas que retenho
enquanto embalo as canções
que te canto baixinho

dá-me o lirismo singelo
que se situa entre os teus
e os meus paralelos
onde nem a excelência da vida
soube manipular a essência

guarda nos teus segredos
esse amor bandido
imensamente permitido
que passeia na superfície
dessa lua que nem é minha
nem é tua
mas é a certeza que
abusa do que insinua

terça-feira, 15 de julho de 2008

Infarto
Angélica T. Almstadter

Não invada a minha veia,
Pra cessar essa sangria,
Estou enfartando de palavras,
Com estrangulamento da carótida,
Da forma mais exótica;
Por excesso de poesia!
Sente e devagar, saboreie;
Esse jorro em homilia,
Da minha adoração profética.
Sinta o gozo do conteúdo,
Em silêncio respeitoso,
Da minha forma fálica,
De usar a fonética.
Pra falar um pouco de tudo,
Vou em cortejo amoroso,
Desfiar verbos e versos,
Embolados e travados na goela,
Os meus universos;
Em dimensão paralela.

sábado, 12 de julho de 2008

Santo Ofício
Angélica T. Almstadter
22-06-05

Lavrado em atos apoteóticos,
O castigo aos ventos propalado;
Feitiços que ficaram históricos
Alquimia de um anjo desregrado.

A impureza da carne rejeitada,
Tem pistas na pele alva
Na alma cicatriz revelada
Acorda tal e qual estrela d'alva.

Amanhece o corpo em fráguas;
O sangue na dor do sacrifício,
Cobre de amor suas mágoas.

Mártir na cúria do Santo Ofício
Despe lembranças nas águas
Inquisição de gozo, baixo meretrício.
Capela
Angélica T. Almstadter
11-05-05

Nem de barro nem de bronze
Do altar a nossa oratória,
Feito de enfeites e honrarias;
Se insurgirá depois das onze
Pungente ou merencória,
A depudorada euforia.
Nem as noites irreverentes
Gemerão tão alto, quanto as vozes
Aprisionadas em desespero,
No lanho dos nossos corpos alvos,
Ungidos, conscientes;
Punindo-se qual algozes.
Na troca de cheiros e temperos.
Particulares favos,
Medidas únicas;
Dos nossos corpos às túnicas.

Melodias e homilias,
Rendidas nesse quarto de hora;
Quando a noite se inicia
Ao toque dos sinos.
Na capela da nossa redenção;
Coro de anjos em vigílias,
Que ao leve toque ignora
O pecado, frente a carícia,
E louva com hinos
O prazer da comunhão.

sexta-feira, 11 de julho de 2008


Nódoa
Angélica T. Almstadter

Cuspi a alma em fagulhas,
Sobre a toalha impecavelmente branca.
Com alma sangrei o vinho do brinde.
Ficou incrustado no linho da mesa,
Sob seu olhar atônito, a marca exata
Da minha mais nobre emoção.
Sei que acalentará com cuidado
Até juntar todos os cacos,
Do meu amor derramado.

Uma taça de esperança tinta,
Para bombear meu coração apagado.
Um silêncio precioso para recompor
O espelho da minh'alma estilhaçada.

Na Pira
Angélica T. Almstadter
25-06-05

Libertaria a carne num culto débil,
Queimaria as entranhas em oferendas;
Sacrifício pagão de corpo infértil
Liturgia descrita em muitas lendas.

Mas o que me faz feiticeira,
Bruxa e santa por encomenda;
É o uso da boca desordeira
E a fala que ninguém recomenda.

Há um brilho no olhar de faca
Enredado durante o solstício,
Na lâmina dessa alpaca.

Quem há de acender o sacrifício?
Querer meu corpo na estaca,
Queimar como anjo em suplício?

Consumado est
Angélica T. Almstadter
03-06-05

De que me valem as poções,
Os tarots e as cabalas;
Se nem os rituais de adivinhações
Me conduzem além das ante-salas?

Eu que conheço do fogo a magia,
Do pêndulo a maestria,
Eu que conversei com gnomos e fadas,
Flertei com a lua em noites encantadas;

Queimo e ardo, em brasas de aflição
Na pira dos rudes sacrifícios,
Onde se perpetua a consumação.

Não me salva a carne dos ofícios,
Da tatuagem da Santa Inquisição;
Para respirar entre os martírios.

Desgoverno

Desgoverno
Angélica T. Almstadter
22-06-05

Feitiço desgovernado e sem calma
Atravessa o fogo dos milênios
Rege o corpo, impacienta a alma;
Ardil engastado de silêncios.

Aprisiona n'alma a carne malsã;
Fere os estatutos da harmonia,
Sentencia como criatura pagã
A viver em eterna rebeldia.

Apócrifos ou meros apêndices?
Reticente; eis o alvo hodierno,
Apascentado por crenças e crendices.

Arderá em seu próprio inferno;
Alma vã em corpo de tolices
Num pacto de amor pós-moderno

Profana

Profana
Angélica T. Almstadter
02-06-05

Estanco debaixo do chuveiro;
Para escorrer os meus pecados,
Rogo a calma desse braseiro
Em sussurros derramados.

Pelo ralo desaparece insensato;
O desejo no afã cobiçado
Desprendido sem nenhum recato.
Pelo na pele eriçado.

Lava a alma e a carne fértil,
A corrente de água pura.
Faz de novo a mente débil

Recolhida na veste de alvura;
A simulação branda e estéril
De apropriada compostura.

Loucura?
Angélica T. Almstadter

No balanço das palavras desconexas
Mordo sons entre os dentes apertados
Como compreender o tênue fio
Que traspassa esse portal
Se todas as imagens são complexas
Os sentidos revirados
E estampado no rosto, o riso é vazio
Nada é pouco, e nem tudo é total
Existirá um limiar para razão,
Ou um patamar para loucura?
A inquisição que crucifica
Confere os atos, mas, produz reflexos?
Quando conhecer a sinceridade pura
Como conduzir a censura?
Qual o ato que por si se justifica?
Será que insanidade diferencia sexos?
Onde as dores dessa fé se estancam?
E onde se derramam?
Qual foi o tribunal que cegamente
Assinou com lágrimas a sentença?
Quanto vale essa presença
Que atribui aos olhos vagamente
Um mundo que parece real
O dia a dia repleto de rituais
A entrega silenciosa
E na pira de sacrifícios: a vestal
Despe a alma amorosa
E passeia entre os desiguais
Ou iguais...

segunda-feira, 7 de julho de 2008

Estatutos do Poeta

Ao poetas deveria ser dado somente o direito de sonhar, sem ter que se preocupar com responsabilidades, sem ter que se guiar pelo relógios dessa terra...os poetas tem as estrelas e os astros como parâmetros...
Aos poetas não deveria ser dado nenhuma obrigação, não para fazê-los vagabundos, mas para deixá-los livres...para o mundo...
Aos poetas não se deveria impor o sacrifício de ganhar o seu sustento, o poeta precisa menos do alimento para o corpo que o linimento para a su´alma.
Aos poetas, jamais deveriam ser solicitadas prestação de contas...hora marcada...noção de dia e mês...nem se é de tarde ou madrugada...
Os poetas são seres sem amarras, sem censuras e sem travas...não sabem viver algemados, não suportam bater o ponto...não são felizes....com asas, cortadas...
Os poetas deveriam ser perdoados dos esquecimentos...dos seus devaneios fora de estação...
Os poetas deveriam ser poupados da razão...deveriam ter o direito de interromper o que quer que fosse, para rabiscar um pensamento....rascunhar um poema, em qualquer lugar que estivesse ...em qualquer hora que a inspiração chegasse...para jamais correrem o risco de se perderem de sua alma, nos momentos de vôos...que só aos dois pertence...
O silêncio, é o combustível do poeta...e deveria ser respeitado...tanto quanto sua tristeza, que não poderia nunca ser investigada...
O poeta gosta da solidão...convive muito bem consigo mesmo, ainda que exploda em versos, prosas e muitas palavras soltas...em tantos pensamentos, até sem cabimentos...o poeta só precisa de um ouvinte, um leitor atento...de carinho, afagos e um, colo sossegado ...para vaguear os seus desvarios...
O poeta é um amável insensato, que dorme quando deveria estar acordado...e tem insônia quando o mundo todo dorme sossegado...
Ao poeta, se deveria perdoar a loucura...a pouca compostura...o cabelo despenteado, o olhar esgazeado...pois a insanidade do poeta é eterna...além da saudade...pois sem saudade, o poeta não hiberna...
Os poetas são sonhos personificados...e só por isso deveriam ser cortejados, respeitados e poupados das mágoas desse mundo...pois já tem as suas próprias...poupados deveriam ser das dores...pois já sangram, sensivelmente pelas dores do ser amado...
Aos poetas, a anistia da razão...a euforia da emoção e o beijo delicado...
Ah! Os poetas, esses gentis amantes...com suas paixões intermitentes e eternos amores...são deliciosamente ousados...e infinitamente atraentes...
Que se lavrem o estatuto...que se reconheçam esse tratado...
Que se abram as portas e que seus vôos beijem, o azul da imensidão...sem regras, sem rótulos e sem grilhões...enquanto ainda vivem os poetas nesse mundo de ilusões....

Um réquiem inacabado

Um réquiem inacabado

Se ardo como brasa pelas palavras é porque fujo da razão literalmente e não me importo que pareça uma demente desatinada; dentro dos ciclones onde habito, há muito mais razões que nos chãos por onde piso.
Arder em palavras nem sempre deveria ser traduzido como furor, e sim como avalanche de sentimentos, como rios caudalosos que a gente não consegue conter. A cada momento, sou tomada de novas sensações, a cada momento meu corpo envia mensagens ao meu intelecto, da mesma forma que minh'alma e meu espírito, esse conjunto que sou, de muitas engrenagens se soma e traduz para a minha cabeça e coração as muitas formas de sentir e experimentar a vida e suas implosões e explosões.
Muitos são os meus habitats, muitos são os meus rumores, muitas são as minhas doses de euforia como muitos são meus desejos de tudo provar. Como um braço forte que me ampara e sustenta está a mão atada às palavras, arrimos da minh'alma. Atemporais são os meus súbitos, meus arroubos, da mesma forma que são os meus mergulhos intensos e refluxos temperamentais, porque habito sobre os meus pilares.
Que eu queime ou me afogue, tanto faz, a densidade que me agita, não é escolha própria, e sim submissão consentida. Enquanto aguardo os sinais vitais se queimarem sobre altares em homenagens póstumas, danço por entre as pirações que me permito sem reservas.
Há muito me perdi das amarras que aprisionam meus cantares, mas há muito ainda para transcrever da tessitura da minha e das almas que me pertencem, ou das que muito próximo, me habitam.
Sou um mundo inacabado de muitas camadas caiadas, mas nada em definitivo, não saberia das formas, e se as soubesse morreria a busca e com ela os desejos e vontade imensa de navegar sem rumo...
Serei ainda um réquiem inacabado quando em fogo fáctuo reluzir; enquanto meu corpo descer pelas camadas da terra que me abriga.

Não desejo ser compreendida



Angélica T. Almstadter

Sou o sonho solitário que rompe os muros dessa prisão...Sou o vento libertário que invade os ares em busca de comunhão...sou a branca nuvem desse teu céu em harmonia...sou a paz na tua melodia...
Sou o rio que explode no leito inexplorado...sou o veio rasga a terra com sede de viver...
Sou a sede da natureza...sou a voz embrutecida...o sal da terra...a voz que grita...se agita...se contorce...
Sou o brado em meio ao deserto...a tempestade que sufoca...o banquete dos faraós...não sou pó...nem oásis nesse mar de sol abrasador...sou a linfa que circula nas entranhas da areia...
Sou espuma ruidosa que se desmancha na areia escaldada...sou minguante na maré das luas adolescentes...sou veleiro perdido na tirania das marolas...
Não sou a paz das espadas desembainhadas...sou guerreira errante nessa ampulheta de bandeiras hasteadas...
Não me pertenço...não sou rumo nessa esfera em que bailo...
Não sou brilho nessa nesga de luz que atravesso...sou a parte amputada da história que conta suas glórias...atravesso o buraco negro...em vôos rasantes...me mantenho atemporal...sazonal...a medida que me guardo no olho do furacão...como chispa incandescente...fagulha acesa...que carece de lenha para arder...
Não desejo ser compreendida...borbulho pela borda da vida e como bebida preferida...me aceito e me derramo...só quero ser sentida...

domingo, 6 de julho de 2008

Anjo e Demônio
Angélica T. Almstadter

Trago dentro do corpo uma prece e um pecado...
uma prece que me guia e um pecado que me consome...Trago dentro de mim um templo e um altar...
um para o recolhimento outro para encantamento...
enquanto num chora o anjo no outro arde a chama da carne...Sou o avesso da orgia e uma porta para a utopia...
em mim tudo habita...
no prazer de cada gesto ou na loucura de cada movimento brusco...
na mão pousada em repouso, pela delicadeza de um momento ou na dança dos corpos em muitos movimentos...
entre um átomo e o universo o início e o fim de cada ato...No fio tênue que balança num riso hilário, passeia minha pele e minha sensatez, uma porque é acesa e a outra que me mantém no fio do equilíbrio...
uma que sustenta a linearidade e outra que desliza no fio da navalha,
têmpera de igual textura, afiada na mesma forja.Trago dentro de mim uma anjo e um demônio...
um que me segura e outro que me empurra...
um que me mima e outro que me alucina...Tenho dentro das minhas entranhas fel e mel,
fogo e água, nem sempre na mesma proporção, mas sempre em profusão...
nunca uma mistura, na essência que me segura, cada manifestação é pura.Sanidade ou loucura nem pouca nem muita,
doses exatas para o bom rendimento...
diante da veia torta que explode ou diante da santidade que me agita...
E só uma que em mim grita...a minha alma aflita....
que nunca sabe onde se prostra, onde se encosta,
se na polaridade da minha vontade ou na liberdade que o vento mostra...Trago dentro de mim a vida e a morte...
em doses não muito precisas...
Num talho da vida o amor jorra...
e num jorro sem norte, a ceifa colhe a sorte...

...e os selos foram abertos


...e os selos foram abertos
angélica t. almstadter
(grafite Platão da minha filha Jussara)

por onde me campeia a vida que anseio?
se dentro dessa taça me afronta sem receio,
me fere a boca que reage suculenta
ao som do peito que aos poucos se arrebenta.
por onde me pega essa vida infeliz
que arde e dói como recente cicatriz?
por onde há de entrar essa ingrata
que amacia os sons e cruelmente maltrata?
ah! mísera fonte das minhas alucinações
mentira vistosa, taça de privações!
por onde me pega sem fala
desfilando o provado com gala,
qual gosto doce de fantasioso veneno,
rabiscado para eu crer ainda terreno.

por onde me agita essa incerteza aflita,
que agoniza feito mentira bonita;
deve passear em alguma praia sem graça
rindo da certeza maluca como troféu na praça
erguido sob o aplauso pomposo.
plantado lá atrás quando nem era mentiroso
um prêmio avidamente buscado e conquistado,
hoje, amarelado, duramente castigado
não tem mais orgulho da sua valia
é fora de uso, um quase museu de anomalia.

era ela e eu um dia por pura utopia,
bebendo no mesmo gole de euforia
o banquete dos atrevidos, sem meias verdades;
e quem disse que se constrói sem iniqüidades?
nenhum alicerce se levanta para o futuro
sem mentira, sem golpes por trás do muro.
um brinde à conquista do pecado
que mata sem mandar recado!

por onde anda sem mais desvelo
a pouca vida enrolada nesse vil novelo,
que se perde numa multidão consumível
plano roto, praticamente inexeqüível
que pode ser derramado sem disputa,
numa única e frágil taça de cicuta...
Canto para um anjo amigo (Eron)

Angélica T. Almstadter

O mundo por instantes estaria deserto,
Se eu não tivesse o abraço dos amigos.
O cinza do dia rasgaria meu peito aberto,
Se não me rondassem anjos, nos perigos.

Não haveria eco aos meus cânticos,
Ainda que silencioso, mas de puro carinho,
Se não fossem esses anjos românticos
Que me abraçam quando me aninho.

Assim quando as lágrimas me afogam;
Oro com fervor em estrofes poéticas,
Para os anjos amigos que me afagam.

Um canto novo por um amigo essencial,
Que me estica na face um sorriso frouxo
Lembrando-me que pra Deus, sou especial.


CANTO PARA UMA AMIGA (Angélica) (Eron)


Ser um anjo pra você seria uma honra,
bem maior do que aquela que mereço..
Por isso me contento em ser um grande amigo,
embora não saiba sequer seu endereço.

Basta saber, apenas, que existo! E que existe
Num lugar que foge ao meu alcance visual,
Mas se me disser que se encontra triste,
Dou-lhe meu apoio na distância abissal!

Não precisa de pão... nem está sedenta!
Precisa tão somente de uma voz que oriente
como abrir veredas pra seguir o seu caminho...

O socorro de que tanto precisa não é material!
Vai encontrá-lo pesquisando no sentimental,
em toda palavra que lhe leve algum carinho!

Desapego

Desapego
Angélica T. Almstadter
24-05-08

Um pouco a cada dia, solenemente,
Intensamente em cada hora
Morro. Com satisfação e gozo.
Delinqüente sobrevivente que sou
Antevejo a epopéia do desenlace,
Sufocada na agonia.
Alma túrgida de funestos desejos,
Abraço em desespero o caos
Que antecede o silêncio sepulcral.

Cepticismo
Angélica T. Almstadter
09-05-08

Tão perto dos teus olhos
E tão longe do teu querer,
Como no dia em que vi a luz primeira
Nos cantos e louvores entoados com alegria.

Meus pés sangraram tantas vezes,
A garganta secou de tantas palavras
Tanto quanto pela sede delas.
Nunca me viste realmente!

Meu coração nunca se aquietou
O desejo de sabê-lo me queimava,
A certeza de senti-lo dava-me esperanças;
Só ao redor de mim te manifestavas.

Marquei hora, dia e não chegaste.
Esperei pelo teu tempo que não chegou.
Gastei o chão indo a tua procura,
Estavas para além de mim, nunca para mim.

Fechei os olhos, o coração e a porta.
Não virás, hoje eu sei.
Meu coração embruteceu de esperar
Por um amor que nunca me abraçou.